Especial

Agricultores do asfalto

Nos grandes centros urbanos, o cultivo de hortaliças e frutas está transformando terrenos abandonados, vãos de viadutos e fundos de escolas em áreas de produção

 

MAIS RENDA: Vieira Campos produz cinco mil pés de hortaliças por mês, em um terreno que já foi abandonado

A Grande São Paulo, com quase 20 milhões de habitantes, é a quarta maior aglomeração de pessoas do mundo. A última das profissões que se poderia imaginar para esse espaço cheio de fábricas, prédios de até 170 metros de altura e ruas entupidas por sete milhões de veículos é a de agricultor. No entanto, acredite: a região metropolitana da capital tem, sim, seus próprios produtores, um grupo de 400 agricultores que cultivam na cidade cerca de mil hectares de alface, almeirão, brócolis, café, morango, caqui, banana, ervas medicinais, plantas ornamentais e até cana-de-açúcar. Esses agricultores praticam a chamada agricultura urbana, plantando em vãos de viadutos, pátios de creches e escolas, terrenos baldios e até embaixo da fiação da rede elétrica. Eles fazem parte de um movimento que vem ganhando adeptos, incentivado pelo governo federal nas capitais do País e nas grandes cidades. O Programa Agricultura Urbana e Periurbana, subsidiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), criado em 2003, já recebeu R$ 40 milhões para desenvolver ações junto a 102 mil famílias. Nesse período, foram implantadas 180 hortas, criadas 222 feiras livres e construídos 31 Centros de Referência em pesquisa. “A principal função do programa é gerar renda para uma população que tem apego à terra, mesmo estando na cidade”, diz João Tadeu Pereira, diretor do Departamento de Estruturação e Integração de Sistemas Públicos Agroalimentares do MDS. Um desses agricultores urbanos é Flávio Vieira Campos, que graças à atividade garante uma renda extra de R$ 2 mil por mês. Há quatro anos, ele produz hortaliças, como alface, almeirão e coentro, no bairro de São Mateus, na zona leste de São Paulo, numa área de 3,5 mil metros quadrados, o equivalente a 0,35 hectare, atrás de um colégio público. Vieira Campos, 55 anos, trabalhava com manutenção de máquinas industriais até 2007, ano em que se aposentou. “A horta foi a salvação da lavoura porque, com ela, complemento a minha renda”, afirma. Vieira Campos colhe, por mês, mais de cinco mil pés de hortaliças. Quem vê o verde da plantação não imagina que o espaço já foi um terreno baldio e abandonado. “Quando recebi a área da prefeitura, só tinha mato”, diz. A comercialização da produção é feita no portão da horta, diretamente às mães que deixam seus filhos na escola. “Na volta para casa, elas sempre param para comprar suas verduras.”

Não muito longe da horta de Vieira Campos, em São Mateus, outras quatro famílias também produzem alimentos desde 2008, embaixo das torres da rede elétrica da Eletropaulo. Além das hortaliças, elas cultivam banana, cenoura, batata- doce e cana-de-açúcar em uma área de oito mil metros quadrados. Um dos fundadores dessa horta, Genival Morais de Farias, 63 anos, conta que a agricultura urbana entrou em sua vida por dois motivos: incremento de renda e paixão pela natureza. Por isso, Farias optou pelo plantio orgânico. “Aqui ninguém coloca produtos químicos na terra nem vai colocar”, diz.

EM MARINGÁ: 33 famílias dividem uma área de 4,8 mil metros quadrados para plantar hortaliças

O crescimento da agricultura urbana é um fenômeno mundial. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 800 milhões de pessoas no mundo se dedicam ao cultivo de alimentos em espaços urbanos, principalmente em grandes centros como Amsterdã, Vancouver, Paris, Nova York, Los Angeles, Xangai e Buenos Aires. Em Moscou, por exemplo, há mais de 20 mil produtores urbanos. Para Araci Kamiyama, gestora de projetos de agricultura sustentável da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a agricultura urbana tem dado certo nos locais em que o produtor conta com assistência constante. Como ocorre com o programa paulista implantado em 2004, em que a Secretaria de Agricultura, através de três Casas de Agricultura Ecológica nas zonas sul, leste e norte da cidade, atua junto aos agricultores. “Nessas regiões, uma equipe de cinco agrônomos e um engenheiro ambiental presta assistência aos produtores e promove ações para incentivar a expansão das áreas agrícolas na cidade, aliada às boas práticas ambientais”, diz Araci. Mas, de acordo com ela, vender a produção de forma ordenada, e não no portão da horta, ainda é um desafio para os agricultores. Para ela, o ideal seria que o governo estadual comprasse nessas hortas os alimentos para creches e escolas públicas.

 

Clique na imagem para ampliar

 

AUXÍLIO: para Kamyama, as prefeituras deveriam comprar os produtos colhidos nas hortas urbanas

As cidades interessadas em promover a agricultura urbana vêm contando com o apoio do MDS. Neste ano, o governo federal está liberando R$ 10 milhões, o maior valor já alocado para esse segmento. “O dinheiro deve atender dez mil famílias na compra de sementes, adubo, estufas, ferramentas e até pequenas máquinas”, diz João Tadeu Pereira, do MDS. “Os recursos atuais são quatro vezes maiores que em 2011, ano em que foram repassados aos agricultores R$ 2,5 milhões.” A justificativa para essa diferença é que o dinheiro somente é liberado quando há demanda formal. “Se os produtores não buscam o dinheiro, essa verba volta para a União”, diz Pereira. Alguns Estados têm demonstrado maior interesse em incentivar a agricultura urbana, como é o caso de Minas Gerais. Desde 2003, Minas já recebeu R$ 15 milhões.

O mais recente a contar com o incentivo do MDS foi o Paraná. Maringá, município a 425 quilômetros de Curitiba, já possuía um projeto de agricultura urbana desde 2005, a cargo da prefeitura, que vinha perdendo fôlego. No ano passado, o MDS liberou R$ 513 mil para a criação do Centro de Referência em Agricultura Urbana e Periurbana (Ceraup). Para Ednaldo Michellon, coordenador do Ceraup, com o apoio do MDS o município deve ampliar novamente o número de produtores urbanos. “Antes de 2010, tínhamos mil famílias na agricultura urbana. Mas, por falta de incentivo, esse número caiu para menos da metade”, diz. Atualmente, Maringá, possui 30 hortas comunitárias. “Agora, a ideia é criar uma associação que reúna os agricultores dessas hortas”, diz o coordenador. Um dos interessados na associação é Severino Caboclo da Luz, um dos primeiros integrantes da Horta Comunitária Itaipu, criada em 2005. A horta, de 4,8 mil metros quadrados, é dividida entre 33 produtores da cidade. “Com uma associação, podemos pensar em conjunto e ter mais renda”, diz o agricultor.