Especial

"É preciso ter um projeto sustentável do ponto de vista econômico”

Dez perguntas para VALDOMIRO POLISELLI JÚNIOR, da VPJ Pecuária

"É preciso ter um  projeto    sustentável  do ponto  de vista econômico”

Foto:Felipe Gabriel

Valdomiro Poliselli Júnior, 55 anos, paulista de Colina, no interior do Estado, pertence a uma família de pecuaristas que estão na atividade há três gerações. Mas, em vez de trilhar o caminho do avô e do pai, de criar gado e entregar para o frigorífico, ele decidiu que seria também um comerciante de carne premium. Isso há 21 anos, quando o conceito de qualidade na bovinocultura era algo muito vago no setor. Há 12 anos, ele abriu a VPJ Alimentos, o coração de seu negócio, com foco na verticalização da cadeia. Hoje, em São Paulo, Poliselli cria angus, brahman e brangus em duas fazendas. Em outra, em Goiás, estão 12 mil bovinos. Ele ainda adquire animais de 150 parceiros, possui um frigorífico de desossa e porcionamento de cortes e vende no mercado 35 toneladas de carne em equivalente carcaça, por ano. Nos próximos meses, Poliselli iniciará outro empreendimento e, claro, mais uma vez a meta é expandir os negócios de carne premium.

Qual o próximo passo da VPJ Alimentos para ganhar mercado?
Vamos abrir nos próximos meses uma  rede de fast food, a Stock Yards Angus Sandwich, para vender hambúrgueres premium, as estrelas do cardápio, usando cortes nobres como, por exemplo, a picanha. O hamburguer é hoje um prato valorizado pelo consumidor. A primeira loja será em São Paulo.

Como o sr. vê o futuro da VPJ?
O futuro sempre esteve na verticalização do negócio. Produzimos do embrião à carne. Além das hamburguerias, vamos iniciar um programa de franquias da Steak Stores, que são as boutiques de carne. Temos cinco lojas em São Paulo, mas o projeto é franquear 50.

Os dois empreendimentos fecham o ciclo do seu projeto pecuário?
Acho que eles tornam o projeto da VPJ sustentável. Sustentabilidade na pecuária não é apenas uma árvore com um boi pastando embaixo. O bem-estar animal é fundamental, mas, na pecuária, a essência  é ter um projeto sustentável do ponto de vista  econômico.

Por que o angus deu certo para a VPJ?
Comecei a criar a raça, em 1995, já visando o cruzamento industrial em fazendas no Estado de Goiás. Na época, comprei 250 bezerras red angus no Canadá e trouxe os animais em um único vôo fretado. Era uma ousadia para a época e deu certo. Mas deu certo porque sempre pensei na qualidade da carne e não apenas no peso do animal para fazer volume no abate. 

A VPJ prosperou no cruzamento industrial do zebu com o angus numa época em que muitos criadores levaram a raça europeia para o Centro-Oeste, mas desistiram do negócio porque os frigoríficos passaram a rejeitar animais provenientes de projetos de cruzamento. O que o manteve na atividade?
Isso aconteceu no início dos anos 2000. Segui adiante com base no conhecimento que tinha da raça angus e o que ocorria com o mercado de carne de qualidade no mundo. Mantive uma linha de raciocínio, sem arredar o pé de que o modelo de cruzamento de angus com zebu é o ideal para a minha pecuária e para outros produtores.

Na sua opinião, sem o tranco dos anos 2000, o cruzamento industrial poderia estar mais adiantado?
Evidentemente que sim.  O avanço que estamos vivendo hoje teria acontecido há mais de dez anos. Porque no ano 2000 a angus já era a raça que mais vendia sêmen no Brasil. Foi o auge da primeira fase do cruzamento industrial. Quatro anos depois, o quadro se inverteu e todos os frigoríficos brasileiros deixaram de comprar carne de cruzamento industrial.

Qual o motivo alegado à época?
Foram três fatores. Houve uma articulação muito forte dos criadores de zebu para recuperar o espaço perdido. Mas é preciso admitir que, naquele tempo, o cruzamento era mal feito. Cruzava-se tudo com tudo. E também não havia uma política de preços diferenciados, como existe hoje.

Qual foi a lição deixada desse episódio?
Em 2004, eu tinha prontos para o abate 25 mil animais cruzados. A indústria simplesmente ignorou minha produção. Por isso nasceu a VPJ Alimentos. Hoje fornecemos carne para o Brasil inteiro, estamos em 1,2 mil estabelecimentos, entre restaurantes de alta gastronomia, empórios  e supermercados das principais capitais.

Qual é o principal desafio do setor?
Já sabemos que o cruzamento de angus com o nelore é o caminho. O desafio agora é produzir essa carne em maior volume. Nós poderíamos vender até dez vezes mais, porque temos mercado consumidor. Mas precisamos de matéria-prima padronizada. O pecuarista precisa entender a demanda da dona de casa e produzir o que é bom para ela e não o que é bom para ele.

Existe um caminho das pedras?
O primeiro passo é ter harmonia entre os criadores de zebu e de angus. O criador de zebu, principalmente o de nelore, não pode olhar para o de angus como um inimigo. O cruzamento é uma ferramenta para fazer dinheiro. O angus não tira o mercado do nelore. O que ele faz é ampliar a produção.