Especial

O novo ciclo do boi verde

Em busca de maior rentabilidade, a pecuária está entrando em um casamento saudável, que promete ser duradouro

INOVAÇÃO: com o sistema Silvipastoril Intensivo, é possível engordar até cinco bovinos por hectare

O boi, tantas vezes acusado de destruir florestas, está se transformando em agente disseminador de árvores. Com a implantação de sistemas agrossilvipastoris em áreas antes degradadas, a pecuária vem se integrando ao rol das atividades sustentáveis no País que contribuem para a preservação do meio ambiente. Para Ricardo Rodrigues, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), é o próprio boi que estimula essa revolução. “Hoje, em busca de maior rentabilidade, a pecuária está se associando à agricultura e à silvicultura, em um casamento saudável e duradouro”, diz.

Recentemente, para viabilizar esse casamento, um modelo adotado pela Colômbia tem chamado a atenção dos pesquisadores brasileiros, o SSPi, sigla para Sistema Silvipastoril Intensivo. O SSPi consiste no plantio consorciado de árvores lenhosas e leguminosas arbustivas, como a leucena que o gado aprecia, comum no Cerrado. Além delas, entram no modelo gramíneas de crescimento ereto, como é o caso da tanzânia, e gramíneas rasteiras, como a estrela africana.

No SSPi, as próprias árvores servem como mourões para cercas, separando uma área de pasto da outra. “Em meio a essa floresta simplificada, com alta concentração de espécies forrageiras, o boi passeia tranquilo, à sombra, sem estresse”, diz Rodrigues. “Esse animal consome alimentos que se complementam do ponto de vista nutricional e produz carne ou leite a baixo custo.” No SSPi, os pastos são manejados de forma racional, por meio do sistema rotacionado. Com isso, a lotação de animais nessas áreas pode subir de 0,9 cabeça por hectare – média da pecuária convencional – para até cinco cabeças por hectare. Na Colômbia, o sistema já conta com a adesão de dois mil produtores, que recebem orientação técnica do Centro de Pesquisa em Sistemas Sustentáveis (Cipav). A meta dessas instituições para 2015 é elevar a atual área de pastos florestados de 45 mil hectares para 95 mil hectares, utilizando uma linha de financiamento de US$ 7 milhões. No longo prazo, o plano é recuperar dez milhões de hectares, dos 40 milhões de hectares de pastagens do País. Para Rodrigues, o modelo colombiano atrai, principalmente, pela possibilidade de enriquecimento do pasto com espécies forrageiras ricas em proteína. O professor da Esalq esteve na Colômbia para conhecer pessoalmente o SSPi e gostou dos resultados. “Pensamos em testar o sistema a partir do ano que vem, no Espírito Santo, onde a Secretaria de Agricultura do Estado já possui um programa de incentivo a sistemas silvipastoris, e no Pará, dentro do Projeto Pecuária Verde”, diz. O projeto na região nordeste do Pará, lançado no ano passado, envolve oito fazendas de gado e está sendo conduzido pelo Sindicato Rural de Paragominas.

Paragominas, localizada à margem da rodovia Belém-Brasília, a 300 quilômetros da capital paraense, é um exemplo de que a pecuária pode ser compatível com a preservação da floresta. Em poucos anos, o município, que no passado chegou a ser batizado de Paragobalas, em função da violência no campo, saiu da lista negra do Ibama para se transformar em exemplo de sustentabilidade, com desmatamento zero. Para o presidente do sindicato rural de Paragominas, Mário Lúcio Castro Costa, o sistema SSPi casa muito bem com o objetivo do projeto Pecuária Verde. “Tudo o que pretendemos são técnicas de manejo que não agridam o meio ambiente”, diz. Em Paragominas, como o município é distante dos centros distribuidores de fertilizantes – por isso é difícil adubar os pastos –, Rodrigues diz que o SSPi na região poderia ajudar a melhorar a fertilidade do solo. A Embrapa Sudeste, em São Carlos (SP), que já estuda o efeito das árvores na produção pecuária há vários anos, também está desenvolvendo um intenso trabalho de difusão do sistema silvipastoril no Estado. Segundo o pesquisador Carlos Eduardo Santos, da área de difusão de tecnologias da Embrapa, o projeto acontece em parceria com a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) do Polo Norte. Para monitorar a dobradinha boi-árvore, foram montadas unidades experimentais nos municípios de Brotas, Ibirá, Olímpia, Aspásia, Riolândia e Votuporanga. A maioria das fazendas acompanhadas pela Embrapa está trabalhando com consórcio de eucalipto com braquiária, um sistema muito simples de manejo. “A ideia de fazer alguma cultura por dois anos para pagar o custo de plantar as árvores tem ganhado a preferência dos produtores do País”, diz Santos.