Especial

O que pensam os líderes

dinheiro rural reúne, em Mesaredonda, diretores da JBS, da Marfrig e da Minerva para discutir os gargalos da fiscalização sanitária no País e apontar as soluções

No dia 19 de abril, uma mesa-redonda realizada na redação da Dinheiro Rural, em São Paulo, reuniu executivos da JBS, da Marfrig e Minerva Foods. As três gigantes do setor respondem por boa parte da carne fiscalizada no País, em especial aquela que conta com o acompanhamento realizado pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF), órgão do Ministério da Agricultura. Segundo esses executivos, a indústria monitorada pelo SIF poderia aumentar os abates e ajudar a sanar de vez a questão da carne irregular no País. Da JBS, participaram do evento Renato Costa, presidente da divisão de carnes, Sérgio Sampaio, diretor executivo de negócios, e Márcio Nappo, diretor de sustentabilidade. Da Marfrig, estiveram presentes Andrew Murchie, CEO da Marfrig Beef Brasil, e Leonel Almeida, gerente de pecuária e sustentabilidade. Pelo grupo Minerva, compareceram Eduardo Puzziello, diretor de relacionamento com os investidores, e Fabiano Tito Rosa, gerente de pesquisa de mercado. Confira os principais momentos do debate.

DINHEIRO RURAL – Do ponto de vista da sanidade animal, é adequado haver um sistema de fiscalização descentralizado de inspeção de abate bovino no País?

Renato Costa – De maneira nenhuma. Por que três níveis de fiscalização se nós não temos três níveis de consumidor? A saúde pública precisa estar em primeiro lugar.

Sérgio Sampaio – É preciso pensar a cadeia como um todo e não em partes. Os frigoríficos sob inspeção federal, que evoluíram muito nos últimos 15 anos, são fruto de um sistema que funciona. Não dá para classificar esse sistema sanitário como um retrocesso, um desserviço ao País. Mas os frigoríficos que não atendem a questões básicas de sanidade, meio ambiente, treinamento de mão de obra e cumprimento das leis trabalhistas, depõem contra a cadeia da carne. O grande desafio nosso passa por aí, porque um sistema de vigilância fraco se reflete em toda a cadeia da carne.

Andrew Murchie – A questão é definir qual saúde estamos protegendo. Se não houvesse problema de controle sanitário nos níveis estadual e municipal, nós nem estaríamos aqui discutindo esse tema tão profundamente. Teoricamente, o básico tem de ser para todos os níveis de fiscalização. O grande problema é que a fiscalização federal é a única que funciona. É a única que garante 100% de sanidade. Não há ninguém que conteste isso.

DINHEIRO RURAL – O Brasil tem cerca de oito mil fiscais, entre federais, estaduais e municipais, praticamente o mesmo número existente nos Estados Unidos. Por que não estamos fiscalizando no mesmo nível?

Fabiano Tito Rosa – Mas qual é o número de fiscais por unidade frigorífica nos dois países? Falta muita gente para fiscalizar aqui. O Brasil tem mais de 1,2 mil unidades frigoríficas só para bovinos. É muito complexo, o que não ocorre nos Estados Unidos. Além disso, com certeza, eles são mais bem equipados e remunerados.

Sérgio Sampaio – Pode até haver a mesma quantidade de profissionais nos dois países, mas nos Estados Unidos há muito menos unidades frigoríficas. Além disso, o foco é diferente. Os americanos estão preocupados com o que é crítico para o consumidor. O Brasil controla coisas como quantos metros quadrados tem uma sala para abate. Nos Estados Unidos, o governo quer saber o seguinte: você tem controle e certeza de que o seu produto está saindo sem risco para o consumidor? O Brasil quer controlar tudo. Há muita reclamação dos próprios fiscais, de que falta gente para cumprir essa tarefa.

Renato Costa – E vai faltar muito mais, por falta de habilitações. Os frigoríficos precisam de gente concursada. Mesmo que haja profissionais dispostos a trabalhar, não se pode contratá-los, porque é preciso que sejam vinculados ao Ministério da Agricultura. A indústria vê com muita preocupação a quantidade de fiscais disponíveis.

DINHEIRO RURAL – Então, o Brasil caminha na contramão do que é preciso ser feito?

Andrew MurchiE – Nós temos um modelo voltado para o que vai ser exportado. Porém, 80% do gado abatido no Brasil fica no mercado interno. Então, há essa sensação de que se dá menos valor ao que fica do que ao que sai do País. No entanto, a verdade é que nós estamos fazendo o caminho certo. De modo geral, temos controles fantásticos. Então, é preciso expandir o foco dado apenas às plantas com serviço de inspeção federal. O Brasil está fazendo, sim, o dever de casa, em termos de saúde animal e saúde pública.

Márcio Nappo – Acontece que essa parte da indústria sem controle aparece e aí as pessoas se perguntam e cobram pela sanidade dos processos. O assunto é um tema dos mais quentes porque, ao mesmo tempo que a indústria com SIF faz a sua parte, ainda é possível ver carne transportada em caçamba de caminhão. Será que nós vamos comer essa carne?

Sérgio Sampaio – Nos últimos anos, o País começou a virar uma sociedade de classe média. Há um novo consumidor no País, que deseja trocar uma carne mais barata, como a carne de frango, pela carne bovina. E ele quer saber o que está comendo. Na JBS, uma grande discussão é como monitorar essa cadeia de valor, do ponto de vista de sanidade, sustentabilidade e de rastreabilidade. É isso que vai garantir a carne de qualidade.

DINHEIRO RURAL – Até que ponto a fiscalização sanitária compromete o desempenho econômico da indústria frigorífica?

Fabiano Tito Rosa – A questão econômica ganha peso quando se começa a entender que a sanidade não está só na indústria. A qualidade da carne começa no campo. É no campo que se inicia o trabalho de orientação e assistência ao pecuarista, de bem-estar animal e de sustentabilidade ambiental. A indústria, cada vez mais, necessita de sistemas de certificações socioambientais, porque elas são parte dos requisitos na avaliação da qualidade da carne.

Renato Costa – No mercado do boi, tudo é no longo prazo e a questão sanitária, hoje, é uma limitação a novos negócios. É a demanda que dá sustentação à indústria. Por isso, os controles não são custos, mas investimentos da cadeia da carne. Uma unidade frigorífica mais equipada pode aproveitar melhor os subprodutos do boi, por exemplo. Isso também é saúde pública porque eles não serão jogados no ambiente. Ou seja, a demanda gera um custo que, na verdade, é um investimento.

DINHEIRO RURAL – Quais os pontos fortes que a indústria com SIF tem e que poderiam contribuir para o sistema de defesa do País?

Sérgio Sampaio – Todo o sistema sanitário gera, atualmente, uma montanha de informações. Uma unidade que abate de 800 a mil animais, em linha, tem cerca de 17 agentes federais em partes específicas de controle de segurança, colhendo informações de saúde animal. Esses dados já são usados pelo Ministério da Agricultura, mas poderiam ser utilizados com maior intensidade. Há dados para análise de resíduo biológico e químico de 100% do rebanho abatido com SIF. Essa informação volta como orientação ao pecuarista, mas não ao pequeno, que está incluído nesse controle.

Leonel Almeida – O fato é que o Ministério da Agricultura tem um banco com informação estática. De maneira geral, esse retorno da informação para o início da cadeia da carne acontece  mais por uma iniciativa da indústria do que pelo modelo de gestão sanitária no País. Existe uma coleta de dados, mas não se veem ações de controle baseadas nesses dados macros. A possibilidade de troca de informações é muito interessante nas empresas. A saúde pública, como foco da sanidade animal, necessita da participação de todos. O consumidor pode comprar um produto por um valor menor ou maior, mas a saúde é uma só.

DINHEIRO RURAL – Há um caminho para resolver os gargalos da fiscalização no curto prazo?
Renato Costa – No curto prazo, é aplicar a legislação. Hoje, a indústria com inspeção federal conseguiria absorver todo o abate não fiscalizado, dado o nível de ociosidade das unidades em operação e do número de frigoríficos parados.

Márcio Nappo – A indústria brasileira está em fase de transição, de amadurecimento. Vai chegar uma hora em que o governo terá de assumir a bandeira da fiscalização e tocar nesse ponto mais fortemente. É inevitável.

Andrew Murchie – Nós estamos num momento ímpar no Brasil. No País, as coisas andam mais rapidamente quando há pressão da sociedade. A questão da fiscalização está na ordem do dia. Então, cabe a nós, da cadeia produtiva, manter esse debate e mostrar qual o nível das melhores empresas do setor. A JBS fez isso muito bem nos últimos meses. A Marfrig tem realizado ações junto ao Ministério Público, ao Ministério da Agricultura e associações de consumidores para mostrar como, de fato, é a indústria. A mensagem é: venha ver o outro lado da moeda.

Fabiano Tito Rosa – Precisa haver um esforço concentrado para resolver o problema rapidamente. Então, que se faça um mutirão para identificar e avaliar todas as unidades estaduais e municipais de abate. Deve ter algumas que estão relativamente adequadas, deve ter algumas que precisam de alguns ajustes para ficar em condições de operar e haverá aquelas que precisam ser fechadas imediatamente.

DINHEIRO RURAL – A expansão internacional das empresas brasileiras tem contribuído para melhorar os processos na indústria?

Sérgio Sampaio – A JBS tem adotado as melhores práticas dos mercados em que atua e desenvolvido muitos processos. É do dia a dia comparar uma unidade com outra, não importa onde ela esteja. O exemplo mais básico é o do bem-estar animal. A indústria tem caminhado nessa direção, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Com as auditorias, começamos a trocar experiências do que dá certo. Isso resulta em uma carne de melhor qualidade e que vai ao encontro do que quer o consumidor.

Eduardo Puzziello – Muitas demandas sobre o bem-estar animal também chegam através dos clientes da Europa, como os supermercados, e a indústria vai se ajustando, em todos os sentidos. Mas, de fato, grande parte dos controles veio através do SIF. É bom ficar claro que o nível das unidades de abate brasileiras já é muito alto. É mais uma questão econômica investir para reduzir cada vez mais os riscos e mostrar isso ao mercado.

Fabiano Tito Rosa – Cinco anos atrás, para uma unidade ser aprovada no Exterior, as delegações dos vários países compradores vinham ao Brasil. Hoje, as unidades são reconhecidas lá fora com o aval do Ministério da Agricultura. Muitos países não vêm inspecionar frigoríficos porque o posicionamento do SIF é suficiente.

Sérgio Sampaio – Se há uma coisa que os demais países têm e que falta para nós é uma maior integração da indústria, do Ministério da Agricultura e das universidades. No mundo, há organizações muito maduras, fortes. Acho que o próximo passo da nossa pecuária é essa integração madura, olhando para o médio e longo prazos. Em países como a Austrália e os Estados Unidos, eles discutem entre si, brigam, debatem e tomam decisões conjuntas, pensando no longo prazo. O Uruguai é um bom exemplo também. No Brasil, nós ainda estamos muito isolados uns dos outros.

DINHEIRO RURAL – Entre o abate mal fiscalizado e o clandestino, são quase 16 milhões de animais cuja carne vai para a mesa do consumidor. O governo já declarou que vai mexer na fiscalização. Por onde se começa esse processo?

Sérgio Sampaio – Há dez anos, a parcela de abate mal ou não fiscalizada era muito maior. A indústria está evoluindo, sim. Agora, o que não pode é dar um passo atrás. Pode-se caminhar mais rapidamente, mas sem prejudicar o sistema que já funciona.

Renato Costa – Há algumas linhas de pensamento no Ministério da Agricultura que não têm essa cultura. O sistema pode ser estadual ou municipal, desde que tenha uma regra que garanta, de fato, o produto de qualidade para o bem da saúde pública.