Estilo no Campo

A arte de fazer o próprio vinho

No interior da Califórnia,uma vinícola abriu suas portas para os amantes da enocultura produzirem sua própria bebida.

Nas primeiras horas da manhã, um grupo de pessoas entra em meio ao vinhedo da vinícola Crushpad, em Napa Valey, no Estado americano da Califórnia. Acompanhados de um guia, os visitantes prestam atenção a todos os detalhes e explicações sobre os elementos essenciais para se fazer um bom vinho. Alguns tentam, em vão, decorar os nomes das muitas variedades de uvas, mas logo desistem. Eles estão ali para aprender a fabricar seus próprios vinhos. Para isso,participam de todo o processo, recebendo noções sobre plantio, colheita, poda dos parreirais, processamento e fermentação. Muitos sairão dali convencidos a ter sua própria vinícola. Outros farão da experiência apenas uma aventura de final de semana.

 

 

sensações: os clientes vivem na pele a rotina da produção do próprio vinho, desde a seleção das uvas até o processo de pisoteio, para retirada do caldo

 

abundância: ao final da produção, o cliente leva para casa um barril de 225 litros de vinho

O que poucos sabem é que a Crushpad surgiu da paixão de Michael Brill, um executivo da área de tecnologia. Em 2002, Brill, cansado da rotina que levava como vicepresidente de marketing em uma companhia de softwares no Vale do Silício, decidiu fazer vinhos em casa, como hobby. Plantou as primeiras parreiras de sua “vinícola”, nos 500 metros quadrados do quintal da sua casa, em São Francisco. “Queria fazer algo diferente para relaxar”,disse à DINHEIRO RURAL. “Como sempre gostei muito de vinhos, então, pensei: por que não fazê-los? Aos poucos, Brill ficou conhecido no bairro e atraiu mais de uma centena de voluntários para ajudá-lo na empreitada. Eram pessoas de diferentes lugares, curiosas para aprender sobre vitivinicultura.

 

 

diversidade: hoje a Crushpad trabalha com 13 variedades de uvas, cultivadas em áreas próprias ou de produtores terceirizados

prática: muitas vezes, o “dia de campo” começa logo cedo, em meio aos parreirais, com explicações sobre o cultivo e cuidados da poda

 

 

Os premiados

Conheça alguns dos vinhos feitos na Crushpad que ganharam destaque entre especialistas no assunto

Patel – Napa Valley, Cabernet 95 pontos – Robert Parker’s Wine Advocate

Jean Edwards – Napa Valley, Cabernet, figurou na lista dos 20 produtores de Cabernet da revista especializada Wine Spectator

Fulcrum Wines – Pinot Noir – 94 pontos na revista Wine Enthusiast

 

 

ÚNICOS: com a bebida pronta, é possível criar um rótulo personalizado junto à equipe de designers da Crushpad

A fama do lugar cresceu e novos clientes foram surgindo. Nascia ali o embrião da Crushpad. Hoje, os clientes já são mais de cinco mil. Chegam de vários pontos do país e têm perfis variados. Há os que querem aprender por puro lazer, mas também tem os que fazem da experiência uma possibilidade de bons negócios.

Atualmente, a Crushpad ocupa uma área de 100 mil metros quadrados na qual se espalham parreiras das variedades Merlot e Chardonay. Próximo dali, em vinhedos próprios ou de terceiros, estão também os cultivos de Pinot Noir, Cabernet Sauvignon, Syrah, Petite Sirah, Sangiovese, Zinfandel, Marsanne, Roussanne, Sauvignon Blanc, Viognier e Grenache. Em 2008, Michael Brill resolveu estender seu negócio para além das fronteiras dos Estados Unidos. Acabou aportando em Bordeaux, na França, onde firmou parceria com o britânico Jonathan Maltus, dono do Château Teyssier, no cultivo das uvas Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Variedades que também estão à disposição dos clientes.

 

TIm-TIm: a empresa também organiza jantares e eventos onde seus clientes podem degustar a imensa variedade de vinhos, diretamente dos toneis

Na Crushpad, quem quiser se aventurar na fabricação do próprio vinho vai desembolsar entre US$ 6 mil e US $ 11 mil, dependendo da uva escolhida. Contando com acompanhamento de um técnico, o cliente traça o plano de execução do vinho, cuidando de detalhes como a seleção das frutas, processo de esmagamento, tipo de fermentação e em qual barril a bebida será armazenada. Em média, o vinho pode permanecer armazenado entre 8 e 24 meses, dependendo do tipo de bebida que o cliente deseja. “O comprador também pode desenvolver seu rótulo personalizado com nossa equipe de designers”, diz Brill. Ao final da experiência, o cliente leva para casa um barril de 225 litros.

Achou a quantidade um exagero? Brill conta que recebe muitos grupos de amigos, que dividem entre si o barril. Fazendo algumas contas, o volume vendido a cada cliente equivale a 59 galões, 300 garrafas ou 1.200 taças da bebida. Quantia suficiente até para começar a comercializar a própria produção. E é o que muitos clientes fazem. A Crushpad oferece apoio para aqueles que desejam investir na comercialização de seus vinhos. Oferece cursos, palestras e oficinas. Para os que não dispõem de tempo para uma viagem à Califórnia, a empresa disponibiliza orientações e vídeos pelo site. Tudo para que o cliente tenha sucesso em sua empreitada.

Muitos dos rótulos produzidos na Crushpad figuraram entre os destaques da imprensa especializada, como a revista Wine Spectator. E tiveram a aprovação de especialistas como Robert Parker e Stephen Tanzer. Diante do reconhecimento e do sucesso da Crushpad, Brill já pensa em expandir o negócio. “Nos próximos anos, queremos chegar a Los Angeles, Nova York e quem sabe até em outros países”, diz. “Para mim, a melhor parte do processo é fazer o que amo.”

 

 

Bebida de autor também no Brasil

Por aqui, o projeto Winemaker, da Miolo, forma 20 enólogos amadores por turma

Suzana Barelli

O carioca Luiz Carlos Cataccini e a baiana Fátima Mendonça orgulham-se de ter um vinho para chamar de seu. O primeiro é vendido pela internet, por R$ 35, a garrafa de 750 ml. O segundo será lançado em maio, como vinho da casa no Soho, restaurante japonês de Fortaleza (CE). Em comum, os dois tintos nasceram da primeira turma do Winemaker, um curso de formação de enólogos amadores, promovido pela vinícola Miolo, na Serra Gaúcha. “Foi uma experiência única, e o Michel Rolland até deu sugestões para o corte do meu vinho”, afirma Cataccini. Corte, no caso, é a porcentagem de cada uva que é utilizada no vinho final. Cataccini pensava em elaborar seu tinto apenas com merlot, mas acabou colocando 5% de cabernet sauvignon. “É incrível como essa pequena porcentagem fez a diferença”, afirma. Rolland, um dos mais renomados enólogos do mundo, é consultor da Miolo e dá uma aula para os alunos do projeto.

Colheita: cliente da Miolo colhe as uvas para fazer o próprio vinho, como o de Cataccini (ao lado)

O Winemaker nasceu em 2008, na Escola de Vinho da Miolo, que funciona na sede da vinícola, no Vale dos Vinhedos. Nele, uma turma de 20 pessoas aprende a elaborar seu próprio vinho, em quatro viagens a Bento Gonçalves, berço da Miolo. “A ideia é que os alunos participem de todas as etapas de elaboração do seu próprio vinho”, afirma a enóloga Gabriela Jornada, coordenadora da Escola de Vinhos. “Até o trator, eles dirigem.” Um vinhedo de 1,7 hectare, cultivado com merlot e localizado bem em frente à Miolo, é destinado ao projeto. Os alunos são responsáveis por podá-lo e por fazer a colheita de suas uvas, depois de provar as frutas e definir a data exata da colheita.

Na sede vinícola, bem ao lado do vinhedo, eles aprendem todo o processo de vinificação, desde a fazer a seleção manual das uvas, em uma esteira apropriada, até cultivar uma levedura, antes de colocá-la nos tanques de fermentação. A escolha do barril de carvalho, sempre novo, também é feita pelos alunos, com supervisão da equipe da Miolo.

 

vinificação:

alunos da Miolo começam a vinificação

Entusiasmada com a experiência, a primeira turma até fundou uma associação, que se reúne duas vezes ao ano. Animados, nove deles compraram um vinhedo na Argentina e prometem apresentar seu primeiro rótulo em breve. A segunda turma acabou de passar pela etapa de colheita e fermentação de seu tinto – o próximo encontro será o engarrafamento e a rotulagem. E já há lista de espera para a terceira turma, que deve começar em 2012. O curso sai por R$ 10 mil, sem incluir o transporte até a Serra Gaúcha.