Estilo no Campo

A sidra quer ser champanhe

A bebida, que até hoje não caiu nas graças dos brasileiros, está se reinventando para atrair novos consumidores

A sidra quer ser champanhe

sidra val de rance

Quando se fala de uma bebida refrescante, adorada pelos europeus, perfeita para momentos especiais e com baixo teor alcoólico, que nome vem à sua cabeça?

Errou quem pensou em champanhe, ou nos demais espumantes, como os proseccos. Trata-se na verdade de uma bebida feita de maçã, rejeitada no Brasil pelos paladares mais exigentes, encontrada apenas em celebrações mais humildes e com acesso interditado às prateleiras de bebidas finas: a sidra.

Uma das bebidas alcoólicas mais antigas do mundo, é provável que já existisse há mais de mil anos antes de Cristo. Sua origem também é um fator que gera discussão. Há quem diga que foram os egípcios que criaram a primeira sidra do mundo, outros apostam nos gregos ou nos celtas.

De certo, a bebida que possui um teor de álcool entre 4% e 8%, passou a figurar entre as bebidas prediletas do pessoal descolado durante o verão europeu. Na Inglaterra, está em curso uma milionária campanha publicitária nos meios de comunicação, associando a sidra ao verão. Para reforçar seu consumo entre os jovens, os fabricantes espanhóis lançaram a sidra em lata, que passou a ser consumida em baladas, competindo com produtos como a Smirnoff Ice, um best-seller nesse público.

A sidra é uma bebida típica da Normandia e da Bretanha, na França, do norte da Espanha, notadamente nas Astúrias, e da Inglaterra. Ela é produzida, nesses países, em regiões onde há uma produção permanente de maçãs e nas quais o cultivo de uva é difícil ou mesmo impossível. Seu habitat são lugares frios, com temperaturas inferiores a 7,2o centígrados.

Não por acaso, a serra catarinense é o único lugar em condições de produzir uma sidra de melhor qualidade. Por sinal, qualidade é um ativo em falta na produção nacional. Até aqui têm predominado no mercado marcas de baixa categoria que acabaram golpeando a imagem da bebida, associada à produtos inferiores.

Essa mácula acabou por influenciar negativamente os importadores, que não se arriscam a trazer de fora um produto de tão má fama, acabando por criar um círculo vicioso: como a sidra nacional é ruim, o consumo é baixo entre os consumidores mais sofisticados, o que inibe a importação de opções de melhor qualidade, deixando espaço livre para os similares nacionais.

Na caneca: o guitarrista Scandurra não dispensa uma sidra entre um ensaio e outro

Não por acaso, um dos poucos fabricantes nacionais que vêm apostando na sidra, a Cooperativa Agrícola São Joaquim (Sanjo) está sediada em São Joaquim, na região serrana de Santa Catarina, um dos raros municípios brasileiros em que, com frequência, neva no inverno, no coração do maior polo produtor de maçãs do País. A Sanjo está trocando o nome de sua sidra, a Icesin, para Bardocco, de olho em mercados como São Paulo e Rio de Janeiro e para aproveitar a onda de valorização da bebida que vem de fora do Brasil.” A marca mais conhecida no Brasil acabou por limitar o interesse dos consumidores pela sidra”, diz Joatã de Oliveira Grazziotin, gerente-administrativo da Sanjo. “Mas isso vai mudar.” Qualquer associação à Cereser, a principal marca comercializada no País, não será uma ilação despropositada.

A sidra brasileira é fabricada com apenas uma fermentação, fora a adição de corantes, aromatizantes e a injeção de gás. Em países como França, Espanha, Inglaterra, Bélgica e Alemanha, são usadas duas fermentações: a primeira, em um tonel de madeira ou aço inox; e a outra, na própria garrafa, o que gera uma gaseificação natural. Esse processo também é seguido pela Sanjo, que produz 42 mil toneladas de maçãs e 50 mil garrafas de sidra por ano. Segundo Grazziotin, a troca do nome de Icesin por Bardocco foi decidida depois que um estudo do departamento de marketing da Sanjo constatou que o antigo nome não agradava aos consumidores. “Bardocco é um termo muito conhecido na Europa para aquele indivíduo que bebia demais e contava histórias cantando”, diz Grazziotin. “ É o trovador.”

O guitarrista Edgard Scandurra, ex-integrante da banda de rock nacional Ira! é fã de carteirinha da sidra da Sanjo. Ele conta que em seu restaurante, o Le Petit Trou, que funcionava na Vila Madalena, em São Paulo, até o ano passado, o estoque de sidras estava sempre completo, seja com marcas francesas como a Val de Rance ou a De La Croix, que é feita com maçãs e peras, seja com o Icesin da Sanjo, que era embalada com o rótulo do restaurante. “A paixão pela sidra cresceu junto com o amor pela música”, lembra Scandurra, Na época, o roqueiro não consumia mais a sidra fabricada no Brasil, dada a baixa qualidade. Buscava bebidas reconhecidas no Exterior “Durante algumas viagens para a Europa, eu experimentava todas as sidras que encontrava”, afirma. “E estudava bastante o assunto.” Segundo ele, diferentemente do aficionado pelo vinho, o consumidor de sidras prefere saborear a bebida resfriada, em uma taça com vidro mais grosso ou em canecas.

Scandurra contou que, durante uma viagem para a Espanha, ele conheceu a região das Astúrias e ficou espantado com a diversidade de marcas e tradições relacionadas ao fermentado de maçã. Lá, depois de aberta, a garrafa precisa ser consumida no mesmo dia, já que a oxidação da bebida é muito rápida. “As adegas tinham máquinas como as nossas chopeiras, para servir sidra, e os clientes tomavam suas bebidas em canecas no balcão, como acontece no Brasil com a cerveja.”