Estilo no Campo

As aves dos ovos de ouro

A criadora Virgínia Franco descobriu 1.001 utilidades nos seus animais e fez de seu hobby um lucrativo negócio

A CRIADORA: Virgínia produz gansos, marrecos e outras aves exóticas

Quando chegou ao Brasil vinda de Portugal, aos cinco anos de idade, a lembrança mais forte que Virgínia Franco tinha da sua terra era das galinhas e patos que seus pais criavam na sua antiga casa. A lembrança era tão forte, que assim que o pai comprou um sítio no Brasil, ela logo arrumou algumas aves para o lugar. Mas o que era apenas um hobby acabou se transformando em um negócio quando um amigo percebeu a qualidade dos pássaros que ela mantinha em seu quintal e a convenceu a levar alguns para uma exposição.

O resultado foi surpreendente: todos foram premiados. O fato a fez enxergar aqueles bichos com outros olhos e ela não teve dúvidas. Largou a profissão de secretária executiva e iniciou a profissionalização da sua criação. Vinte e cinco anos depois, hoje ela é uma premiada criadora de aves de raça pura e, junto do pai, Manuel Franco, comanda o Sítio da Família, uma propriedade de três hectares no bairro de Parelheiros, um lugar que embora tenha todas as características das zonas rurais de cidades do interior, se localiza dentro do município de São Paulo.

Lá ela cria gansos, patos, galinhas, marrecos e cisnes, das mais variadas espécies, um plantel que chega a 600 aves. Com uma produção média de 300 filhotes por ciclo de reprodução e vendendo suas aves em vários estados do Brasil, a preços que variam de R$ 100 a R$ 1.500 a unidade, dependendo da espécie da ave, ela é o exemplo de como esse pode ser um bom negócio para pequenas propriedades. “O início foi difícil, diziam que isso não era coisa de mulher e sim de velho aposentado. Além disso, não há publicações a respeito de aves de raça pura no Brasil, tive que aprender na marra”, lembra a criadora.

As aves de raça pura são espécies em sua maioria de origem importada, com características pré-determinadas por um padrão internacional. “Esse padrão analisa todas as características das aves, como forma do corpo, plumagem, cor do bico etc. Qualquer característica que não bata com o padrão faz com que a ave seja descartada”, conta. A maior parte é de aves exóticas, como o marreco Carolina, com sua plumagem colorida, a um custo médio de R$ 400 o casal. Devido à beleza, elas sãos muito procuradas para ornamentação de hotéis, sítios e parques. Há também bichos curiosos como o ganso de Toulouse, um animal de plumagem cinza, que pode chegar a pesar 15 kg e custar R$ 1,5 mil o exemplar. Sua carne é muito utilizada no preparo de pratos sofisticados, principalmente da culinária francesa, como o foie gras, fígado gordo em francês. O prato, que consiste no preparo do fígado de ganso, é considerado uma das maiores iguarias da culinária francesa e naquele país o quilo pode chegar a custar R$ 355. “No Brasil comercializamos essas aves para algumas famílias alemãs tradicionais que o consomem na ceia de natal ou em outras festas”, conta Virgínia.

AVE NO PRATO: o foie gras é feito com o fígado do ganso e é considerado uma iguaria

Mas a maior e mais curiosa procura é pelas várias espécies de gansos, um animal que tem valor médio de R$ 100 a unidade. A maior parte das pessoas que procuram essa ave não quer degustar a carne e nem utilizá- los como decoração. O que elas procuram é um animal de guarda. “O ganso é um animal muito alerta e que faz um enorme alarme a qualquer movimento estranho na propriedade”, ressalta Virgínia. A criadora conta que outro uso curioso para essas aves é de fazendeiros que criam cavalos de raça e usam os gansos para espantar cobras. Ela já comercializou lotes de aves para esse fim em fazendas de Mato Grosso e Bahia. “Antigamente se acreditava que os gansos comiam as cobras, mas isso é mito”, se diverte a criadora.

Sobre a rentabilidade do negócio, Virgínia diz que, com os recentes problemas envolvendo a ameaça de gripe aviária, houve uma grande queda na procura por esse tipo de ave. Além disso, as exigências mais rigorosas de exames médicos e restrições de transporte dificultam a participação em exposições e comercialização para outros Estados. Nada que a desanime de continuar com a criação. “Acredito que logo o ritmo das vendas deve ser retomado a todo vapor, afinal, já construí muitas coisas com a criação de aves.”