Estilo no Campo

Cabeça feita

Com novas cores e trançados, o chapéu panamá conquista um número cada vez maior de aficcionados

Cabeça feita

Artesanal: a peça é totalmente trançada à mão, por artesãos equatorianos descendentes dos incas Divulgação

N a busca da elegância, políticos, cientistas, músicos e atores têm mais em comum do que se possa imaginar. Ex-presidentes como Theodore Roosevelt, dos Estados Unidos, e Getúlio Vargas, do Brasil, o aviador Santos Dumont, o músico Tom Jobim, o ator Humphrey Bogart, no filme Casablanca, um dos clássicos da história do cinema, podiam ser vistos com um chapéu aPanamá na cabeça. Mas a peça que ganhou fama e uma legião de fãs em todo o mundo vai muito além da leveza, da maciez e de sua beleza típica. O chapéu Panamá representa uma tradição de mais de mil anos para os incas, povos que habitavam a região hoje ocupada pelo Equador, Peru, norte do Chile, oeste da Bolívia e noroeste da Argentina. “O chapéu que foi criado pelos incas ainda hoje é fabricado de maneira totalmente manual, por artesãos que são descendentes desses índios”, diz Marcelo Sarquis, dono da Aba Chapéus, do Rio de Janeiro, uma das maiores importadoras do acessório no Brasil.

A fama do chapéu ganhou o mundo a partir início do século 20, com a construção do Canal do Panamá. Foram os peões de obra, trabalhadores estrangeiros que erguiam as imensas comportas de até 700 toneladas, que começaram a se proteger do sol com o artefato. O nome chapéu Panamá veio daí, embora as peças sejam fabricadas exclusivamente no Equador por habilidosos artesãos de Montecristi, a cerca de 400 quilômetros da capital Quito, uma cidadezinha de pouco mais de 14 mil habitantes, e de Cuenca, centro histórico, considerado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas desde 1999. É na zona rural dessas duas localidades que nasce a palma Cardulovica palmata, que depois de colhida e fervida, serve para produzir a palha toquilla, a matéria-prima dos chapéus, somente encontrada no país. A tradição dos incas, transmitida de pai para filho, ensina a escolher as fibras mais longas, resistentes e sem defeitos, para tecer cuidadosamente o chapéu. O processo é similar à fabricação de um tecido, sendo que a palha também pode ser trançada de diferentes maneiras. Quanto mais fina a fibra da palha, mais sofisticada é a trama, dando origem a um chapéu delicado, conhecido como super fino. A confecção de uma peça pode levar até seis meses e valer cerca de R$ 7 mil. Os modelos mais simples, com trama mais rústica, são trançados em dois dias e vendidos a preços em torno de R$ 200.


Sucesso no Brasil: Marcelo Sarquis, dono da empresa carioca ABA, importa mais de cincomil chapéus por ano

A maciez é um ponto forte do chapéu Panamá, pois permite que possa ser enrolado e guardado em caixas cilíndricas, sem que amasse ou tenha sua estrutura deformada. Por ser muito confortável e leve, nos últimos anos o Panamá vem ganhando uma pegada fashion. “Estilistas estão valorizando o chapéu como acessório da moda”, diz Sarquis. “As mulheres querem um de cada cor, para combinar com a roupa e com o sapato.” De olho nessa demanda, Sarquis mantém em sua loja uma linha de chapéus coloridos, embora o clássico branco ainda seja o seu carro-chefe. “Mas os tingidos estão ganhando força, não há dúvida”, afirma. Com uma linha de 35 cores, os chapéus pink, uva, beterraba e azul marinho são os que mais fazem sucesso, segundo ele.
Nos últimos tempos, uma das clientes mais assíduas da Aba Chapéus tem sido a auditora fiscal carioca Aline Camacho Telo, de 35 anos. Em novembro do ano passado, ela comprou o seu primeiro chapéu Panamá, um modelo branco clássico. De lá para cá, montou uma coleção com oito peças. “Eu me apaixonei completamente”, diz Aline. “Uso de dia e de noite, e não vivo mais sem ele.”  Para dar conta dos pedidos dos clientes, Sarquis viaja ao Equador uma vez ao ano para encomendar os produtos. “Eu escolho tudo a dedo”, diz o empresário. “Como os chapéus coloridos são encomendados, defino as cores de acordo com as tendências da moda brasileira.”

Para chegar a esse nível de sofisticação no comércio de chapéus, Sarquis percorreu um longo caminho. Ele investiu três anos em pesquisas, até importar o primeiro lote de 24 unidades, em 2007. No ano seguinte, o empresário importou o segundo lote com 500 unidades e não parou mais. Atualmente, a Aba importa mais de cinco mil unidades por ano, que são distribuídas para 800 lojas de todo o País. De acordo com Sarquis, o único problema desse mercado com demanda em alta é que o preço das peças vem subindo, principalmente dos chapéus de melhor qualidade. “A produção não cresce, porque muitos filhos de artesãos não querem mais seguir a profissão dos pais”, diz Sarquis. “Já esperei por quase dois anos para conseguir comprar um chapéu fino.”


Paixão: a auditora fiscal Aline Camacho Telo se apaixonou pelo Chapéu Panamá e comprou oito modelos, em menos de um ano