Estilo no Campo

Liberdade no campo

o haras das Oito Virtudes mantém seus animais com livre acesso aos pastos, propondo um modelo de criação que foge do tradicional

Liberdade no campo

Divulgação

N o universo dos símbolos, o cavalo está na origem de uma série de imagens que remetem à liberdade, à energia e ao poder. Poucas cenas superam a ideia de ser livre, como a de um cavalo em disparada. No haras Das Oito Virtudes, em Amparo (SP), esses símbolos se tornaram um modelo de criação: durante todo o tempo, as baias nas quais estão 80 cavalos das raças mangalarga marchador e puro sangue lusitano dão livre acesso a uma área de 60 hectares de pasto. Em 2013, a propriedade que pertence ao carioca e ex-executivo da Ambev, Ricardo Bacellar Wuerkert, 52 anos, tornou-se o primeiro haras do País a receber a certificação Sela Verde, concebida pelas organizações não governamentais Instituto Biotrópicos, de Minas Gerais, e Conservação Internacional Brasil, com sede no Rio de Janeiro. No final do ano passado, a certificação foi renovada por mais três anos. “É o modelo de criação mais lógico para mim, pois quero que os animais vivam da maneira mais natural possível”, diz Wuerkert.

O haras, que fica dentro da Palmares, fazenda de 120 hectares que também se dedica ao cultivo de café, é fruto de uma paixão de infância de Wuerkert: criar cavalos. O projeto começou a ganhar forma em 2004, quando o executivo comprou a propriedade de Amparo, a cerca de 120 quilômetros da capital paulista, onde reside há 30 anos. “Fui me cercando de todas as informações possíveis para conduzir um bom trabalho e elas me guiaram para esse estilo de criação.”


“Minha ideia é ir além do que propõe o Sela Verde, pois aposto em um estilo de criação que vai se tornar a marca do meu haras” Ricardo Wuerkert, do haras Das Oito Virtudes

Ao contrário do modelo tradicional de seleção genética e melhoramento animal, no qual os equinos permanecem a maior parte do tempo em baias, saindo em horas determinadas para o pasto, e alimentados com uma dieta altamente protéica à base de ração, o Sela Verde propõe uma alternativa. O animal recebe um reforço alimentar mínimo e permanece a maior parte de sua vida no pasto, em sintonia com a preservação ambiental e a responsabilidade social. Atualmente, nascem no haras de Wuerkert oito potros e potras por ano. O criador retém os animais mais jovens e vende os mais erados, já domados,  a praticantes de cavalgadas e esportes amadores.

Para o geógrafo Yash Rocha Maciel, especialista em desenvolvimento sustentável e coordenador do projeto Sela Verde, essa nova linha de criação se reflete em um melhor comportamento dos animais. “Criados livremente, os equinos se tornam muito mais dóceis”, diz Maciel. “Além disso, o modelo influencia em uma maior longevidade dos animais, pois nesse sistema eles estão menos sujeito a doenças”. O Sela Verde, que existe desde 2012, tem o apoio da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador e da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Campolina.

Hoje, além do haras de Wuerkert, o haras Das Marias, do criador Luiz Roberto Horst Silveira Pinto, de Jarinu (SP), criador de campolina, também possui a certificação. Para receberem o Sela Verde, as propriedades passam por um longo processo de auditoria, com vistorias anuais e renovação a cada três anos.


Certificação: Maciel, coordenador do Sela Verde, diz que os criadores começam a buscar mecanismos para qualificar a produção dos haras e que eles são uma tendência na criação de cavalos

São 20 critérios observados, entre eles a limpeza e o espaço das baias, o caminho para os pastos, os acasalamentos naturais, a desmama aos sete meses e o cumprimento das legislações ambiental e trabalhista. “O haras Das Oito Virtudes tem potencial de permanecer por muito tempo como referência para o projeto”, diz Maciel. “Já visitei muitas propriedades, mas raras vezes vi uma do mesmo nível.” Na parte ambiental, por exemplo, Wuerkert preserva mais matas nativas do que manda a legislação. São 40 hectares, o equivalente a 33% da propriedade, quando seriam suficientes 25%. No manejo, o criador nem mesmo apara ou corta os pelos e as crinas dos animais, para não estressá-los. “Minha ideia é ir além do que propõe o Sela Verde, pois aposto em um estilo de criação que vai se tornar a marca do meu haras”, afirma o criador.

Atualmente, seis técnicos do projeto Sela Verde são os responsáveis pelas auditorias nas propriedades. Maciel afirma que a equipe deverá crescer, à medida da demanda pela certificação. “Nosso objetivo é fazer um trabalho de qualidade, antes de pensar em quantidade”, diz. De acordo com ele, o interesse pelo Sela Verde tem aumentado porque, cada vez mais, a tendência entre os criadores é buscar certificações que qualifiquem a produção. “Isso já acontece na agricultura e na criação de bovinos. Agora, começa a ocorrer no mercado de cavalos”. Até o final deste ano, mais três haras devem receber o selo Sela Verde.