Estilo no Campo

Melhor amigo do homem e das ovelhas

Cão pastor maremano abruzês trabalha há mais de dois mil anos no pastoreio de ovelhas. Agora, promete revolucionar a ovinocultura no Brasil

TRABALHO NO SANGUE: originários da Itália, os maremanos são exímios pastores. Abaixo, o criador com a cadela Astra, outra de suas campeãs

Criadores de ovinos, respirem aliviados. Acostumados a apenas assistir de mãos atadas aos constantes ataques aos seus rebanhos, os ovinocultores agora têm um aliado de peso contra os predadores. Originários da Itália, os cachorros da raça pastor maremano abruzês, que fazem a guarda de ovelhas nos Montes Apeninos há mais de dois mil anos, já podem ser encontrados no Brasil, onde terão a dura missão de proteger os animais locais contra os predadores tupiniquins, como lobos, raposas e onças pintadas. O número de maremanos no País ainda é baixo, mas os resultados obtidos até agora são animadores. Mesmo não sendo um cão intimidador à primeira vista, o maremano é extremamente valente, sem, contudo, brigar por qualquer motivo. Experiente na guarda de ovinos, sabe exatamente onde “mora o perigo”. Por isso, seu trabalho consiste basicamente na prevenção de ataques. Ele é treinado para, diariamente, fazer uma ronda num raio de aproximadamente três quilômetros ao redor do rebanho. A intenção é demarcar o território e inibir a aproximação de eventuais predadores menores. Durante o dia, mesmo quando descansa, está atento aos perigos. Isso porque o trabalho pesado é feito durante a noite, quando os predadores saem à caça.

“Não existe nenhum pastor de ovelhas na Itália que não tenha um pastor maremano. Cada propriedade tem pelo menos dez animais, que garantem a segurança do rebanho”, afirma Pedro Nacib Jorge Neto, responsável pela importação de animais qualificados para o Brasil. O empresário, que também cria ovinos da raça white dorper em sua fazenda em Itapira, interior de São Paulo, conta que se interessou pelos cães após perder alguns de seus animais vitimas de ataques. “Assim que coloquei os primeiros maremanos na fazenda, acabou o problema. Nosso vizinho de cerca chegou a perder mais de 20 animais por semana depois disso, mas nós nunca mais tivemos problemas por aqui”, explica. “Então eu decidi estudar melhor a raça.”

Dito e feito. No último ano da faculdade de veterinária, Jorge Neto escreveu parte de sua monografia sobre os maremanos e viu neles um ótimo negócio. Depois, partiu rumo à Itália em busca de alguns animais selecionados da região de Abruzzo para trazer ao Brasil e começar uma criação. De tanto procurar, encontrou Argante Dell’Antico Tratturo, um cão que em pouco tempo se tornaria um dos destaques da raça na Europa.

“Eu reservei o Argante muito jovem, mas só queria que ele viesse para o Brasil se vencesse o campeonato italiano. Mesmo sendo de uma raça considerada tardia, que se forma depois dos dois anos, ele ganhou a exposição nacional da raça na Itália com 16 meses. Logo em seguida eu fui buscá-lo”, conta, orgulhoso, o proprietário que desembolsou cerca de 15 mil euros pelo cachorro. O investimento, no entanto, não foi em vão. “Chegando aqui ele já desbancou cachorros tradicionais do Brasil e se tornou campeão e grande campeão brasileiro e pan-americano.”

A chegada de Argante, e também da fêmea Astra, outra campeã italiana, deu um choque genético na criação de cães na Fazenda Talisman, que já contava com alguns animais de origem norte-americana. Os resultados foram rapidamente sentidos. De acordo com o criador, os maremanos meio-sangue, como são conhecidos, são mais “preguiçosos” que os italianos, que nascem e crescem em meio às ovelhas.

“Mesmo sendo um cão rústico, de trabalho, traz uma genética selecionada da raça ao País”, lembra Jorge Neto, que hoje conta com quatro fêmeas e dois machos adultos puros de origem para reprodução. Sua primeira ninhada já está praticamente toda vendida, mesmo sem qualquer divulgação. Um negócio muito rentável.

Um maremano macho é vendido por R$ 1,8 mil, em média, se castrado. Sem ser castrado, este preço sobe para R$ 3 mil, enquanto as fêmeas são vendidas a R$ 6 mil. “Alguns estudos feitos na Europa mostram que o ideal é que o animal seja castrado, para que não corra o perigo de abandonar o rebanho, caso chegue uma fêmea no cio”, diz. Já Argante é um caso à parte. Sua cobertura custa R$ 5 mil, mas o empresário já vem vendendo sêmen do animal a 800 euros a dose.