Estilo no Campo

Os viúvos do bandeirante

Desde que saiu de linha, o utilitário da Toyota deixou os produtores sem muitas opções de veículo para o trabalho pesado. E agora?

1 – CARRO NOVO? EU NÃO…

Marcos Domingos, Marcos do Lago, Paulo Andrade e Otávio Cerri (da esq. para a dir.) ainda preferem trabalhar com o “velho Toyota”

Um parceiro de trabalho. Esta é a melhor definição para o Toyota Bandeirante, veículo utilitário que parou de ser fabricado pela montadora japonesa no final de 2001, deixando milhares de produtores rurais na saudade. Desde que o Bandeirante saiu de linha, nunca mais existiu um carro com as mesmas características. Sinal dos tempos? Pode até ser, mas a verdade é que ainda existe uma legião de adeptos do “velho Toyota”, como é conhecido, que não trocam seus cargueiros pelos veículos mais modernos por nada neste mundo. Para eles, o Bandeirante é insubstituível.

Hoje, quem tem um Bandeirante, não vende. E isso não é força de expressão. De acordo com a tabela Fipe, um Bandeirante 2001 custa em média R$ 52 mil. É mais que uma picape média nova, mas, para quem é dono de um veículo como esse, não importa. “Meu irmão comprou este Bandeirante zero-quilômetro, em 1988. Nesses 20 anos, o carro trabalhou direto, ajudando a carregar nossa produção, e nunca deu nenhum problema. Tenho uma picape mais moderna, mas ela não agüenta fazer o trabalho da Toyota”, conta o cafeicultor paulista Paulo Andrade, que costuma carregar até 1,5 mil quilos de café no veículo, sempre por estradas precárias.

Segundo o fabricante, o jipe saiu de linha devido à inviabilidade técnica para mantê-lo em produção dentro das leis de emissões de poluentes em vigor no Brasil a partir de 2002. Desde 1962, quando começou a ser fabricado por aqui, 103.750 Bandeirante foram vendidos. Destes, estima-se que 60% ainda estão em plena atividade. “Tiraram- no de linha por causa da poluição, mas agora, com o biodiesel, não teria mais este problema. A Toyota devia retomar sua fabricação”, reclama Otávio Cerri, dono de um Bandeirante 1989 impecavelmente conservado. “Não deixo ninguém encostar no carro”, continua o produtor, que pagou cerca de R$ 30 mil pelo veículo há três anos.

Sem o Bandeirante, os produtores estão tendo que se virar com as opções oferecidas atualmente pelo mercado. Alguns partiram para o uso de picapes tradicionais, mas reclamam da falta de robustez. Outros optaram por caminhões leves, mas estes não encaram as estradas enlameadas por não terem tração integral. Então, qual a saída? DINHEIRO RURAL testou alguns dos principais modelos hoje à disposição e constatou: nenhum deles é igual ao Bandeirante, mas existem sim boas opções. Mas fique atento, pois cada veículo é indicado para um tipo específico de trabalho.

Descendente direta do Bandeirante, a Hilux sai na frente dos concorrentes devido à grande credibilidade adquirida pela Toyota entre os produtores rurais. Mesmo assim, não é tão robusta quanto o antecessor. Tem capacidade de carga de apenas 800 quilos, muito pouco para trabalhos mais pesados, e é considerada cara. Vendida por R$ 81 mil em sua versão mais básica, a Hilux custa quase o mesmo que um Bandeirante zero-quilômetro, se ainda fosse fabricado. “Esses carros novos privilegiam o conforto. Não foram feitos para o trabalho pesado”, analisa Paulo Andrade.

Contemporâneo do Bandeirante, o Land Rover Defender também aparece como uma boa pedida. Rústico, tem fama de agüentar qualquer condição. Fabricado no Brasil até 2005, o jipão voltou a ser importado da Inglaterra e, por isso, custa mais caro: cerca de R$ 144 mil. Se mesmo assim você tiver coragem de colocar um carro desses para trabalhar, a versão mais indicada é a Defender 130, picape cabine dupla com capacidade de carga de 1.380 quilos, vendida sob encomenda. No Brasil ainda é pouco utilizada nas fazendas, mas é a favorita dos produtores europeus.

No Brasil a favorita ainda é a Chevrolet S10. Líder de vendas há 13 anos, a picape está presente em fazendas de todo o Brasil, muito em função da enorme rede de revendas e de assistência técnica oferecida pela General Motors. Assistência, no entanto, é algo que os proprietários do Bandeirante não sabem muito bem o que é. “Este veículo não precisa de manutenção. Desde que comprei meu Bandeirante, em 1984, o carro andou mais de 300 mil quilômetros, mas pouquíssimas vezes tive de levá-lo ao mecânico. O gasto é só com óleo diesel e pneus”, garante Marcos Domingos, dono de um Toyota 1976, usado diariamente para carregar café ou insumos.

Mecânico especializado em motores diesel, Marcos Roberto do Lago concorda. “Este carro era muito forte, não poderia ter saído de linha. Hoje, não temos um veículo que atenda às nossas necessidades. O mais próximo disso é o Agrale, mas é muito caro”, diz ele. O Agrale ao qual ele se refere é o Marruá, projetado exatamente para ocupar o lugar deixado pelo “velho Toyota” em frotas de companhias elétricas, trabalhos de reflorestamento e transporte em zonas rurais. Equipado com um potente motor MWM e tração nas quatro rodas, custa R$ 112 mil, mas carrega até duas toneladas de carga sem dificuldades.

Outra boa opção para quem tem muita produção para carregar não é exatamente uma picape, mas sim um jipe. Projetado inicialmente como um carro de lazer, o Troller vem conquistando cada vez mais os moradores das zonas rurais. O veículo em si tem pouca capacidade de carga, mas é capaz de puxar reboques com até 2,4 toneladas até pelos piores terrenos. Exatamente como os jipes Bandeirante sem caçamba faziam. Seu maior problema é a fragilidade. Feito em fibra, é pouco resistente se comparado às caminhonetes produzidas para o trabalho pesado.

“O Bandeirante foi construído para durar longos anos produzindo lucros para seu proprietário.” Esta frase, que constava no manual do proprietário do veículo, traduz bem o que ele representa para o agronegócio. Sem dúvida, o Bandeirante já deixou saudade.