Estilo no Campo

Paixão lusitana

Na Coudelaria Rocas do Vouga, em Itu (SP), Tavares de Almeida cultivam uma paixão: o puro-sangue lusitano. Além prazer da montaria, eles colecionam títulos e feitos com os animais

Família equestre: Manuel e Thereza (sentados) compartilham com os filhos Luiza, Manuel Neto (a esq.) e Pedro a paixão pelo lusitano

 

As conquistas de Luiza Almeida

Membro da equipe brasileira nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008)

Medalha de bronze por equipe nos Jogos Panamericanos do Rio (2007)

Prêmio Brasil Olímpico 2009 e 2010 Membro da equipe brasileira nos Jogos Equestres Mundiais de entucky/USA (2010)

Primeira representante da América do Sul no FEI World Dressage Cup em ‘s-Hertogenbosch, Holanda (2010)

Campeã Brasileira Júnior de Adestramento (2006)

Campeã Brasileira Sênior Top de Adestramento (2008)

Hong Kong, 13 de agosto de 2008, 8h33. Nas arquibancadas do Centro Equestre Sha Tin, localizado no Jockey Club, todas as atenções estavam voltadas para Luiza Tavares de Almeida, 16 anos de idade. A amazona paulistana tinha a responsabilidade de abrir a participação do hipismo brasileiro nos Jogos de Pequim e registrar um momento especial para o Adestramento: a modalidade fazia sua estreia na competição como equipe. Luiza também vivia um momento pessoal único. Ao pisar na pista, entrava para a história como a mais jovem atleta do hipismo em Olimpíada, substituindo o medalha de ouro Rodrigo Pessoa, do Salto, que aos 19 anos havia competido em 1992, em Barcelona. No comando das rédeas de Samba, a afinidade de Luiza com o animal era notória. A apresentação do conjunto lembrava uma peça de balé. Na plateia, a prova que tem duração média de cinco minutos pareceu uma eternidade para o empresário Manuel Tavares de Almeida Filho.

A ansiedade e o nervosismo do pai da atleta em nada lembravam o homem de negócios bemsucedido que comanda o grupo Tavares de Almeida, um conglomerado de empresas cinquentenário, com atuação nas áreas de produção de etanol, implementos agrícolas, bebidas, hotelaria e banco. No término da apresentação, ao ver a filha aplaudida de pé, Tavares de Almeida se deixou vencer pelas lágrimas. “São momentos como este que representam não só a satisfação pessoal de pai, mas de criador de cavalos atletas”, diz, ainda hoje, com olhos marejados ao relembrar a cena olímpica. “Foi um momento mágico na minha vida”, diz Luiza. Ela não trouxe medalha, mas ainda pretende ganhar uma. “Foi a primeira de muitas Olimpíadas que pretendo participar.”

 

 

Dono da Coudelaria Rocas do Vouga, Tavares de Almeida vem se dedicando à seleção do cavalo lusitano, há 18 anos. Mas a participação desses animais no cotidiano da família vem muito antes disso. “Nossos filhos não sabiam andar ainda, mas já cavalgavam no nosso colo”, diz Manuel. “E, para perder o medo, nós amarrávamos um lençol no cavalo, sentávamos as crianças e saíamos puxando. Virou diversão e despertou a paixão na criançada”, diz Thereza, mulher Manuel.

 

Além de Luiza, a prole é formada por outros três atletas: Thaisa, 21, e os gêmeos Manuel e Pedro, 17. Atletas versáteis, eles competem em provas de Salto, Equitação de Trabalho e Adestramento. É nessa última modalidade, considerada a mais clássica do hipismo e a primeira a estrear em Olimpíada, que os irmãos colecionam vitórias e acalentam o sonho de integrarem, juntos, uma equipe brasileira em competições internacionais. O sonho não está longe de se realizar. Pedro, Manuel e Luiza vêm participando, com sucesso, das seletivas para o Pan de Guadalajara, em outubro. “A medalha de bronze por equipe que a Luiza conquistou no Pan do Rio em 2007 e a dedicação que ela tem ao esporte e aos cavalos são inspiração não apenas para a família, mas para toda uma geração de atletas do hipismo”, diz Pedro, outro colecionador de títulos.

Picadeiro real

Em Portugal, Manuel Tavares encantou-se com uma carruagem que pertenceu a Dom Carlos (1863 a 1908), penúltimo rei do país. Comprou as lanternas do carro. Hoje, elas ornam a entrada do picadeiro, batizado com o nome do monarca. Na sala de troféus, a imagem de Dom Carlos completa a homenagem

 

Cavalgada noturna: (Acima) o passeio é uma das principais atrações da programação do turismo rural. Ao lado, objetos e decorações do casarão retratam uma elite endinheirada na época do Brasil Colônia

 

 

As vitórias dos irmãos em pista são atribuídas não só à dedicação aos treinamentos e aos excepcionais cavalos que montam, mas também a Thereza, a advogada que abdicou da profissão para criar um inovador programa de treinamento batizado de Capa – Cavalo Atleta de Performance Avançada. O sucesso do programa levou a Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) a adotá-lo a partir da preparação das equipes que participaram dos Jogos Equestres Mundiais de Kentucky, nos EUA, em 2010. O Capa nasceu da percepção de que cavalos atletas, a exemplo do atleta humano de alta performance, necessitam de treinamento planejado e periodizado, ao lado de reavaliações constantes de seus desempenhos. “O projeto buscou parâmetros na medicina desportiva humana de ponta para desenvolver uma metodologia de padrão contínuo de alta performance”, diz Thereza.

Família de atletas: Thereza incentivou Pedro (foto do meio) e Manuel, ainda crianças, na Equitação de Trabalho

 

Enquanto ela e os filhos mostram seu desempenho nas pistas, Tavares de Almeida dedica-se ao estudo da raça. A base do plantel da Coudelaria Rocas de Vouga foi formada a partir de matrizes oriundas de dois criatórios brasileiros: a Top Agropecuária e da Interagro, além de animais importados de Portugal. Hoje, a marca é referência mundial em qualidade genética do cavalo lusitano.