Estilo no Campo

Quando o chão treme nos Pampas

Uma das mais tradicionais provas da eqüinocultura brasileira, o Freio de Ouro traduz bem a paixão do povo gaúcho pelos cavalos

 

OMBRO A OMBRO: para vencer o Freio de Ouro é preciso mostrar habilidade em diferentes provas

Aarena está lotada. Mais de 30 mil espectadores aguardam ansiosos pelo início da disputa. O local é Esteio, cidade próxima à capital gaúcha, Porto Alegre. Não, não se trata de nenhum clássico entre Grêmio e Internacional, mas sim da grande final do Freio de Ouro, uma das mais tradicionais provas da eqüinocultura brasileira. Lá, a paixão pelos cavalos é tanta que deixa até o futebol em segundo plano. Organizado pela Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos – ABCCC desde 1977, o Freio de Ouro surgiu como uma competição entre criadores que queriam demonstrar as habilidades de seus animais.

Hoje, porém, o evento é totalmente profissionalizado e para os gaúchos é a Copa do Mundo dos cavalos. Para se ter uma idéia da dimensão do evento, mais de 1.500 animais da raça crioula iniciaram a disputa nas fases classificatórias do Freio de Ouro 2008. Destes, apenas 28 – 14 machos e 14 fêmeas – se classificaram para a grande final, durante a Expointer, principal evento agropecuário do calendário sulista.

“É uma prova de extrema tradição, que vem se destacando pelo alto nível técnico apresentado pelos cavalos e ginetes”, afirma Henrique Teixeira, presidente da ABCCC, lembrando que para vencer, é preciso mostrar habilidades em oito provas diferentes, além de enfrentar uma rigorosa avaliação morfológica. “No começo era só por diversão, mas agora a coisa é séria. Muita gente trabalha apenas em função das competições”, continua.

MINA DE OURO: um animal campeão em Esteio pode até triplicar seu valor de mercado

É o caso de Cássio Bonoto, dono da Cabanha Itaó, de Santiago-RS. Criador de cavalos crioulos há quase 20 anos, Bonoto faturou o Freio de Ouro e o Freio de Prata na categoria fêmeas em 2008. A dobradinha teve um impacto imediato. Além de tornar a Cabanha uma referência em treinamento para competições da raça, a conquista deve render um bom dinheiro ao proprietário. De acordo com o criador, um cavalo premiado em Esteio chega a triplicar seu valor de mercado. E isso não é pouca coisa quando falamos de animais que custam centenas de milhares de reais.

“Um cavalo crioulo de ponta, mas sem títulos de expressão, custa em média R$ 100 mil. Mas, depois de ganhar um Freio de Ouro, não é vendido por menos de R$ 300 mil. Fora a valorização dos outros animais da mesma linhagem, que podem dobrar de preço”, conta Bonoto, que também levou o Freio de Bronze em 2007 e o Bocal de Ouro, competição para animais novos, em 2006 e 2007. O segredo do sucesso, para ele, é a dedicação.

“Fico sempre por perto. Gosto de trocar idéias com nosso treinador e dar dicas para melhorarmos ainda mais nossos animais”, diz. A Cabanha Itaó ainda deve faturar alto com a venda de genética. Segundo a ABCCC, a cobertura de um animal campeão no Freio de Ouro não sai por menos de R$ 10 mil, mas os finalistas também são valorizados, principalmente com o sucesso que os cavalos crioulos vêm obtendo em competições de laço e provas de trabalho nos Estados Unidos e Europa.

“É uma raça que demorou 400 anos para se desenvolver. No início, eram usados para o trabalho no campo e até em guerras. Sempre foram muito exigidos, por isso, só os mais fortes sobreviveram”, completa Henrique Teixeira, da ABCCC. Hoje existem cerca de 220 mil cavalos crioulos registrados no Brasil, 85% deles no Estado do Rio Grande do Sul. Prova que os gaúchos, que faturaram todos os Freios de Ouro até hoje, ainda devem reinar absolutos por um bom tempo.

 

Ele é o cara!

Como todo bom gaúcho, Daniel Teixeira começou a montar ainda criança, aos quatro anos de idade. Hoje, aos 28, é considerado um dos melhores e mais experientes ginetes do Brasil. Prova disso foram os quatro títulos do “Ginete de Ouro”, prêmio concedido aos melhores cavaleiros da temporada, conquistados nos últimos cinco anos. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL, Teixeira falou de sua relação com os cavalos e dos “forasteiros” que ameaçam a hegemonia gaúcha no Freio de Ouro.

RURAL – Quando você percebeu que tinha talento? TEIXEIRA – Monto desde os quatro anos. Em 1994, aos 14 anos, percebi que já tinha nível para participar do Freio de Ouro. Fui o ginete mais jovem a competir até hoje e levei o Freio de Bronze logo de cara. Isso me estimulou. Depois disso, eu segui trabalhando forte até conquistar meu primeiro Ginete de Ouro, em 2004. Repeti o feito em 2005, 2007 e 2008.

RURAL – Como explicar esta hegemonia gaúcha no Freio de Ouro? TEIXEIRA – Hoje tem muita gente de outros Estados competindo, mas a tradição do cavalo crioulo é no Rio Grande do Sul. Temos muitos criadores, mas os outros Estados estão crescendo. Tem muita gente boa por aí.

RURAL – Você vive dos prêmios ganhos? TEIXEIRA – Não. Eu tenho um centro de treinamento especializado em Freio de Ouro. Recebo cavalos de outros criadores e os desenvolvo. Montei sete cavalos na edição deste ano e levei o Largo da 3J ao Freio de Bronze.