Estilo no Campo

Um jardim na fazenda

Obra prima do paisagista Burle Marx transforma uma antiga propriedade de café em atração em São Paulo

Um jardim na fazenda

Divulgação

As belezas naturais da Serra da Bocaina, localizada na divisa entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, se misturam a muitos casarões em estilos colonial e neoclássico que remontam à época dos barões do café. A região atrai turistas interessados na riqueza histórica dos tempos do Brasil imperial, além de trilhas e cachoeiras. No entanto, na fazenda Vargem Grande, uma propriedade a cerca de 20 quilômetros do município Areias (SP), na divisa com o Rio de Janeiro, o vai e vem dos visitantes é marcado pela presença de estudantes de arquitetura e paisagismo. Nessa fazenda, o tesouro natural e histórico se funde a uma paisagem modernista esculpida por Roberto Burle Marx, um dos maiores artistas plásticos do País. No local, o paisagista, que morreu em 1994, construiu um de seus famosos jardins. “A gente tem um patrimônio muito especial nas mãos”, diz Bel Gomes, uma das proprietárias da fazenda. “Um jardim de fama internacional, criado por um dos maiores paisagistas do século 20.”

A propriedade foi comprada em 1973 pelo pai de Bel, o engenheiro civil Clemente Fagundes Gomes, que restaurou o casarão da fazenda, datado de 1837. O engenheiro, que desde a década de 1950 era amigo de Burle Marx, pediu a ele um jardim particular. Utilizando a área do antigo terreiro de café, o projeto levou quase dez anos para ficar pronto e está entre as obras-primas de Burle Marx. São três níveis de terreno e águas se espalhando por 19 quedas, cinco espelhos e duas piscinas naturais, alimentadas pelas nascentes da região. “As piscinas não levam cloro e nem têm azulejos”, diz Maria Lúcia, irmã de Bel. “E, mesmo sendo de concreto, se integram ao ambiente com um conceito bem interessante.” O jardim de 30 mil metros quadrados é preservado de acordo com o projeto original, sob a supervisão do paisagista Haruyoshi Ono, que por décadas foi sócio de Burle Marx.

Esse tesouro da fazenda Vargem Grande é visto por estudiosos em paisagismo como um quadro emoldurado pela Mata Atlântica da região. “O projeto é muito harmonioso, de modo que a mata nativa parece uma extensão do jardim”, afirma o engenheiro agrônomo Jorge Sakai, que presta consultoria técnica para a manutenção do local. “É um conjunto paisagístico indescritível, com uma bela composição de cores e distribuição dos volumes de vegetação.” O jardim possui mais de 60 espécies de plantas nativas e exóticas, o que exige uma manutenção cuidadosa, replantio, podas e adubações constantes. “O desafio é fazer um bom manejo do conjunto”, diz o agrônomo. “Com uma coleção de plantas aquáticas e exóticas desse nível é preciso ter um bom conhecimento para manter a vegetação.”


“A gente tem um patrimônio muito especial, um jardim criado por um dos maiores paisagistas do século 20” Bel Gomes, proprietária da fazenda Vargem Grande

Mas, para Sakai, o diferencial do projeto é a valorização da água. “Nesse jardim, há um esplêndido aproveitamento do curso natural”, diz. É a água abundante que permite o cultivo de espécies como a vitória-régia, típica da região amazônica, uma planta que exibe folhas circulares de até dois metros de diâmetro na superfície da água.  Para as irmãs Maria Lúcia e Bel, um dos encantos do local é observar as mudanças que ocorrem em sua vegetação. “É um jardim tropical que se transforma ao longo do ano. Cada estação tem a sua beleza”, diz Maria Lúcia. Para Bel, muitas espécies chamam a atenção. “A flor da vitória-régia exala um perfume doce que dura apenas 24 horas”, afirma. “No inverno, é lindo ver a árvore Bombax malabarica florescer, colorindo o jardim de vermelho.”

O zelo das irmãs se justifica. Desde que Gomes faleceu, em 1993, a fazenda é preservada por suas filhas Bel, Maria Lúcia e Ana Maria Gomes. Foram elas que abriram as portas da propriedade para a visitação turística, além de oferecer serviços de hospedagem eventualmente. A fazenda também faz parte da Associação Roteiros Ca­­minhos da Corte, entidade criada para incentivar o turismo na re­­gião conhecida como Vale Histó­­rico. Na época do Brasil imperial, eram as estradas da região que serviam de ligação entre São Paulo e a capital do Rio de Janeiro.


Obra prima: a fazenda Vargem Grande, em Areias (SP), atrai visitantes que contemplam o jardim projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx