Estilo no Campo

Viola minha viola

O zootecnista Cláudio Lacerda trocou a criação de vacas leiteiras pela música, mas não esqueceu do campo

Viola minha viola

"Cantador: Lacerda, que estuda música desde os 13 anos, foi se profissinalizar aos 30 anos" Divulgação

Em uma noite fria do mês de maio, enquanto as luzes se acendiam lentamente no palco da sala de espetáculos da Galeria Olido, na região central da capital paulista, surgia o som suave de acordes dedilhados em uma viola. O ambiente foi se enchendo, aos poucos, de uma sonoridade caipira, rural, sertaneja, folk ou de raiz, e nas quase duas horas seguintes o violeiro de dedos ágeis e voz de barítono, Cláudio Lacerda, paulistano de 46 anos, mostrou canções de seu show intitulado Olhos D’Água. São músicas que destacam a importância da preservação ambiental para as gerações futuras, além de serem uma reflexão sobre a atual crise hídrica em muitas regiões do País.  “A música é meu instrumento de ação no mundo”, diz Lacerda. “É disso que eu gosto.”

O que pouca gente na plateia sabia é que naquele palco também estava um zootecnista, formado em 1992 pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Botucatu. Antes de se dedicar à música, Lacerda trabalhou por nove anos em fazendas de gado leiteiro no Sul de Minas Gerais, onde também foi consultor. Mas, sua ligação com o campo é ainda mais antiga, iniciada quando, ainda criança, frequentava a região de Patos de Minas (MG), município de origem dos pais. “Era um apaixonado por cavalos, queria ser veterinário e depois caí de amores pela zootecnia.”

O violão, que dedilha desde os 13 anos de idade, era um hobby. “Tive uma infância festeira, com a trilha sonora na minha casa indo de autores como  Chico Mineiro a João Pacífico e Cascatinha e Inhana.”


Renato Teixeira: um dos mais reconhecidos músicos do país é considerado uma espécie de papa para os novos violeiros

O encontro de Lacerda com a música profissional só aconteceu aos 30 anos de idade. Ele conta que o estopim foi uma palestra motivacional. “Eu ouvi o seguinte: pense no que você é melhor e isso será a sua diferença no mundo”, afirma o músico.  Lacerda, então, jogou a carreira no agronegócio para o alto e retornou a São Paulo. “Eu gosto da zootecnia, mas o que eu sei fazer bem é cantar.” Os primeiros passos na música cumpriu o ritual de quase todo artista iniciante, um pacote no qual figuram infindáveis apresentações em bares, dinheiro curto e muitas incertezas. Foi nessa toada que ele conheceu compositores, como José Paulo Medeiros, filho de pecuaristas, e Paulo Simões, um dos autores de Trem do Pantanal, considerada por muitos apaixonados como o hino de Mato Grosso do Sul. Entre os músicos dos quais se tornou parceiro estão Neymar Dias e Sérgio Turcão, amigo de Renato Teixeira, um dos maiores compositores do País, além de Almir Sater, o mais reconhecido artista desse gênero musical.


Almir Sater: para o músico e criador de gado, não dá para comparar violeiros porque, em geral, são autodidatas 

Assim, em 2003, Lacerda gravou seu primeiro CD, Alma Lavada, com canções próprias e de convidados. A proximidade com Teixeira, um de seus maiores ídolos, rendeu sua participação em uma das faixas. “É um cantor extraordinário, um Deus”, afirma Lacerda. “Certa vez, ele disse numa entrevista que, com Inezita Barroso, se sentia um coroinha diante do Papa. Eu me sinto um coroinha diante de Renato Teixeira, o mesmo sentimento de muito outros violeiros da minha geração.”

Para o outro ídolo, Almir Sater, Lacerda também é só elogios. “Sater influenciou muito a minha geração”, diz. “A maneira de tocar viola é totalmente contemporânea, um som que antes dele a gente não escutava.” Segundo ele, que também cria gado no Pantanal de Mato Grosso do Sul, é muito difícil um violeiro copiar o que o outro faz. “Não dá para comparar violeiros porque, em geral, são autodidatas, não há escolas que ensinem o instrumento”, afirma Sater, que no mês passado gravou um CD em parceria com Teixeira, projeto há cinco anos em compasso de espera por falta de agenda. “Claro que há influência, mas os sons de cada um vão tomando forma própria.”

No caso de Lacerda, a influência desses dois artistas, aliada ao gosto pelo estudo do canto, o levou a uma carreira sem paradas. Depois do primeiro CD, o violeiro gravou Alma Caipira, em 2007, com a participação do legendário Tinoco, da dupla Tonico e Tinoco.

O trabalho conta com músicas antigas, muitas delas com uma única gravação realizada na década de 1950. No ano passado, foi a vez de Cantador, um CD com a participação do falecido sanfoneiro Dominguinhos. Neste ano, Lacerda produziu Trilha Boiadeira, primeiramente gravado para comemorar os dez anos da TV Terraviva, da rede Bandeirantes, mas que está sendo lançado como um CD autoral. Para 2016, já está em fase de gravação Estradas para o Sertão, uma compilação de músicas de Chico Buarque, Tom Jobim, Gonzaguinha, Edu Lobo e Ivan Lins. Mas isso não significa mudança de rota. “São músicas brejeiras, rurais e bem caipirinhas desses artistas”, afirma. “Todas falam do sertão.” E entre um projeto e outro, os shows se sucedem. No mês passado, Lacerda, mais uma vez dedilhava sua viola no projeto Quatro Cantos, encontro musical com outros três violeiros. Longe da zootecnia, para ele, fazer sucesso é viver da própria música.” Se for assim, sou um violeiro vitorioso”,diz. “Mas não vou sozinho, tem muita gente boa nessa estrada.”