Carreira

De volta para o futuro

Assumir a presidência da DSM na América Latina, depois de ter sido CEO global de marketing da companhia, não significa um passo atrás para o engenheiro de alimentos Maurício Adade

De volta para o futuro

"Os cargos não têm mais peso nas minhas escolhas, o que me interessa é a novidade" Maurício Adade, CEO da DSM Jadir Bison

Até o mês passado, o uniforme de trabalho do engenheiro de alimentos Maurício Adade era exclusivamente o terno e a gravata. Atuando a partir da Suíça, como CEO global de marketing da multinacional holandesa DSM, da área química, farmacêutica, cosmética e nutrição animal e humana, o executivo raramente saía de uma rotina de compromissos corporativos essencialmente urbanos. Mas, agora, como presidente da DSM na América Latina, cujo comando está centralizado no Brasil, a história é outra, e seu guarda-roupa  já ganhou até um par de botas. “Estão lustradas e prontas para usar, porque no próximo mês começo a visitar as fazendas”, diz Adade. “É uma experiência da qual não abro mão.” A ideia é enfrentar nos próximos seis meses uma agenda pesada de visitas no campo para conhecer mais intimamente os clientes da Tortuga, a maior companhia brasileira de nutrição animal, comprada pelos holandeses, em 2012, por US$ 576 milhões. No ano passado, a atual DSM Tortuga ficou em primeiro lugar na categoria Nutrição Animal no prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL.

Aos 51 anos, assumir um cargo executivo num momento de instabilidade e crise econômica na maior parte da América Latina, e particularmente no Brasil, não assusta o executivo que passou os últimos 23 anos fora do País. Da mesma forma, garante ele, não há demérito algum em ocupar um posto que, na hierarquia da corporação, está um degrau abaixo do cargo anterior.  “ Estou num momento da vida profissional em que os cargos não têm mais peso nas minhas escolhas, o que me interessa é a novidade e o desafio no trabalho”, diz Adade. Ele assegura, no entanto, que não aceitaria o posto caso julgasse que, com isso,  lhe caberia um papel menor nas decisões da companhia. “Não é o caso”, afirma. “A posição de CEO da América Latina, que exije pôr a mão na massa e trabalhar não apenas como um estrategista corporativo, como acontecia anteriormente, tem um componente extraordinário que é o fazer acontecer numa companhia.”

Segundo o professor José Luiz Tejon Megido, diretor do núcleo de agronegócio da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), instituição na qual Adade obteve um canudo de pós-graduação em marketing, todo profissional precisa se autodesafiar, como condição para não congelar no tempo. “Tudo na vida são lições de uma escola interminável”, diz Tejon, como é conhecido o professor da ESPM. “É, por isso, que o desafio te leva mais longe.” Adade, por exemplo, já foi parar em Cingapura, no sudeste asiático, a 16 mil quilômetros de São Paulo, onde está a sede regional da DSM.  Permaneceu  por quatro anos, a partir de 1998, naquele país,  de onde alçou voos para os cargos globais que exerceria nos anos seguintes, até o seu retorno ao Brasil.

Sobre sua experiência internacional, iniciada em 1992, como diretor de operações da filial mexicana do laboratório suíço Roche (vendido 10 anos depois para a DSM) Adade diz que as duas mais importantes lições aprendidas têm a ver com os princípios dos quais não abre mão: acreditar na verdade e ter confiança nas escolhas realizadas. “Essa bagagem tem me ajudado em momentos difíceis”, diz o executivo. “A América Latina, de modo geral, e os nossos três principais mercados, representados por Brasil, Argentina e Venezuela, atravessam instabilidades econômicas que exigem ações precisas e com pouca margem de erro.” No ano passado, a DSM faturou na América Latina  E 2,3 bilhões, valor equivalente a 25% de sua receita global.

Mas, experiências  em ambientes turbulentos é o que não falta em sua carreira. Sua transferência para  Cingapura, em 1998, se deu  no auge de uma crise financeira que havia começado em 1996, quando os fluxos de capital para a Ásia caíram de US$ 93 bilhões para US$ 12 bilhões. “Na época, os tigres asiáticos, como eram conhecidos alguns países do  continente, viraram gatinhos”, diz. Antes desse episódio, o executivo já havia enfrentado o chamado Tequilaço, no México, que impactou a economia mundial, com fuga de capitais associada à especulação financeira. “Por isso, acredito que nos dias atuais precisamos ficar o mais próximo possível dos clientes”, diz Adade. “Os ambientes de crise nos quais trabalhei me ensinaram que entender o cliente te leva à liderança e não o contrário.” Agora, a possibilidade de Adade ter de gastar muita sola de bota é grande, já que uma das estratégias do grupo é transformar a Tortuga, uma forte marca local, em referência global, na área de nutrição animal.