Economia

Renda fixa aditivada

Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio caem no gosto do setor sucroalcooleiro

Em vez de contar apenas com o empréstimo bancário, gradativamente, as companhias do agronegócio estão buscando alternativas e começam a olhar para o mercado de capitais. Nesse movimento de abertura, o setor sucroalcooleiro é pioneiro. Prova disso é que, no mês passado, cinco usinas fizeram parte de um grupo para a emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), que são uma opção de título de renda fixa ainda pouco difundida no País.

Juntas, a Usina Rio Pardo S.A., Ruette, Usina Ester, Usina Caeté e Alcoeste captaram R$ 82 milhões de investidores. “O setor de açúcar e etanol vem se destacando”, diz João Pacífico, diretor da securitizadora Gaia Agro, que foi responsável pela emissão. “É o segmento que mais emite CRAs atualmente.” No entanto, Pacífico diz que, como o setor sucroalcooleiro passa por uma crise nos últimos
anos, a securitizadora está encarando o crescimento da demanda com cautela. “Todas as empresas querem recursos”, afirma. “Nosso desafio é estruturar operações seguras, com usinas financeiramente saudáveis.” No caso da emissão do grupo de cinco usinas, a operação tem prazo de três anos, com lastro em contratos de venda de etanol para a trading Coopersucar, cujos papéis vão remunerar o investidor em 100% da taxa interbancária (CDI) mais 3% ao ano.

Seja para renovar os canaviais,  seja para ter capital de giro ou para alongar suas dívidas, os motivos dessas empresas são inúmeros e o interesse pelos CRAs não para de crescer. Entre as emissões
anteriores, destacam-se a Nardini Agroindustrial, de São Paulo, que captou R$ 120 milhões em 2013, e a goiana Jalles Machado, com R$ 41,5 milhões, no ano passado. No entanto, um divisor de
águas para a história aproximadados CRAs no Brasil foi a operação da Raízen, joint venture entre a Shell e o grupo Cosan, que ficou em primeiro lugar em gestão corporativa na categoria Agronegócio Direto – Conglomerados, no prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL 2014. A emissão foi em outubro de 2014. Inicialmente, o plano era captar R$ 500 milhões. Mas o sucesso do título foi tão grande que a Raízen alcançou R$ 675 milhões, na maior operação de emissão de CRA já realizada no Brasil, o que contribuiu para estimular a entrada de outras empresas nesse segmento.

Segundo Pacífico, os CRAs podem oferecer taxas de juros menores do que as praticadas pelos bancos e vencimentos mais atraentes, já que há títulos com prazo de até sete anos. Outra vantagem dos CRAs é conceder visibilidade para a empresa, o que pode facilitar sua entrada futura na bolsa de valores, com a abertura de capital. “A emissão de CRAs pode melhorar bastante a imagem de uma empresa, mostrando que a companhia tem boa governança e credibilidade”, afirma Sérgio Penteado, diretor-executivo da securitizadora Brasil Agrosec. Além disso, essas emissões aproximam os investidores do campo brasileiro. “É o principal instrumento para levar dinheiro do mercado de capitais ao agronegócio”, diz Penteado.

De acordo com a Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip), esse segmento de títulos de renda fixa está em franca expansão. “A bolsa de valores não enfrenta um bom momento, o que leva o investidor a buscar outras alternativas e a diversificar a sua carteira de investimentos”, afirma Ricardo Magalhães, gerente de relações e projetos da Cetip. Em novembro de 2014, o estoque de CRAs era de aproximada mente R$ 1,6 bilhão, enquanto em novembro do ano anterior o estoque foi de R$ 845,2 milhões. “Os CRAs passaram a entrar no radar do investidor”, diz Magalhães. “É um ativo que tem apresentado um crescimento consistente.”

Qualquer pessoa com recursos acima de R$ 300 mil pode apostar nos CRAs, com a vantagem de ter a isenção de Imposto de Renda para o investidor pessoa física. “É um dos títulos mais rentáveis do mercado”, diz Pacífico. Para Magalhães, esse título pode ser considerado uma aplicação sofisticada, que requer conhecimento por parte do investidor. “Investir em CRA significa comprar uma securitização, um fluxo de dívida”, afirma. “O investidor deve avaliar o histórico da securitizadora, analisar o devedor e os elementos mitigadores.” Os CRAs são títulos emitidos exclusivamente por empresas securitizadoras, com lastro em direitos creditórios. As garantias desse tipo de papel podem estar vinculadas à propriedade rural ou à produção de empresas do agronegócio.