Especial

Um futuro para construir

15 movimentos que estão nascendo no agro, ou em processo de consolidação, podem mudar os rumos do setor. O desafio é aumentar a produtividade com mais sustentabilidade em toda a cadeia do alimento e da bioenergia

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O desejo de conhecer e prever o futuro é tão antigo quanto a própria história da humanidade. Hoje, como futurologia, esse desejo é uma ciência multidisciplinar. Na era pós-industrial, estudar o futuro é um objetivo cobiçado visando a criação de pontes para as transformações sociais, porque é a sua velocidade que determinará os impactos no consumo de produtos, de serviços e de cultura. A correlação entre pessoas, empresas e a tecnologia vai determinar mudanças profundas, muitas delas já em marcha. Não por acaso, o agronegócio bebe dessa fonte futurista como parte fundamental da sobrevivência humana na terra.

Nos dias atuais, os anos de 2030 e de 2050 são marcos simbólicos que servem de farol das tarefas em pauta. No primeiro caso, por representar os compromissos assumidos no Pacto Global, proposto pela Organização das Nações Unidas com a Agenda 2030. São metas os cuidados com as pessoas, o meio ambiente e a transparência nos negócios. No caso de 2050, a data é um marco no qual a população global pode alcançar a casa de 10 bilhões de habitantes. Nesse Especial 15 Anos Dinheiro Rural está uma reflexão, em ordem aleatória, sobre 15 tendências para o agronegócio em um ambiente de infinitas transformações. Confira.

De olho no campo
A Dinheiro Rural e o agronegócio

Em 2019, a revista DINHEIRO RURAL completa 15 anos. O projeto que nasceu na equipe da Dinheiro, a única revista semanal de economia do País, tinha uma missão: falar de negócio e ser porta voz de um público que até então não era visto como de empresários. A Dinheiro Rural ajudou a mudar a imagem do agropecuarista, não importando o tamanho de sua propriedade. Porque no fim das contas todos são empreendedores no campo, em busca de sustentabilidade. Desde julho, o Especial 15 Anos DINHEIRO RURAL está mostrando como o setor chegou até aqui e quais os principais desafios para continuar crescendo. Acompanhe essa saga.

Conectividade

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De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 20% da população rural ainda não está conectada à internet. Na cidade, esse índice cai para 1%. Além disso, o serviço é de baixa qualidade para a população rural e também para as empresas. A conectividade no campo como modelo universal, ligando máquinas e processos, dará uma nova dimensão à gestão dos ativos e da inteligência. Para agropecuária digital deslanchar ela depende desse insumo. Isso porque a era digital está baseada em comportamentos que serão cada vez mais mediados por dados e por interações em rede.

Nanotecnologia

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A “engenharia à escala muito pequena”, ou nanotecnologia, tem como base um nanômetro, que é a bilionésima parte de um metro. Ou seja, controlar a matéria em escala atômica e molecular. Essa ciência já está na agroindústria e na agropecuária, com os inúmeros sensores nas aplicações de defensivos e no rastreamento de micróbios, toxinas e contaminantes nos alimentos ao longo da cadeia de processamento. Mas a tecnologia ainda vai avançar nas áreas de ingredientes e insumos para a impressão 3D de alimentos, bionanocompósitos comestíveis de fontes renováveis, biopolímeros oriundos de coprodutos agropecuários e da biodiversidade para veiculação e liberação de compostos orgânicos voláteis e não voláteis, entre eles fármacos, pesticidas, fertilizantes, vacinas e muito mais. Essa tecnologia, hoje restrita, tende a ganhar escala.

Alimentos sintéticos

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Alimentos sintéticos, como as carnes de laboratório, e as carnes vegetais, as chamadas plant-based, já são uma realidade que atrai investimentos de toda ordem. No ano passado, as foodtechs receberam aportes globais da ordem de US$ 7,5 bilhões, ante US$ 2 bilhões há cinco anos, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor. São os novos hábitos modelando as inovações na agroindústria. O que vai determinar o ritmo do crescimento desse setor será a sua capacidade de concorrer com os alimentos convencionais na gôndola. Esse movimento de consolidação deve ocorrer com mais intensidade nos próximos cinco anos, determinando novos modelos de negócio na cadeia do alimento.

Gestão de pessoas

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As tecnologias digitais e móveis já começaram a reorganizar as estruturas tradicionais de emprego e o mercado de trabalho. O futuro das tecnologias que facilitam as atividades profissionais em todos os setores — e agronegócio não está fora —, mostra que a tendência é a humanização dos sistemas na era da automação. Na revolução industrial, o homem se tornou uma engrenagem da máquina. Agora, com as tecnologias disruptivas, o desafio é colocar o ser humano no centro dos processos. É a chamada era do Humano para o Humano (H2H), nas ciências sociais. Não por acaso, nos dias atuais, a gestão do capital humano e o design organizacional já estão entre as principais metas de estudo nas grandes corporações.

Automação

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A agropecuária tem passado por uma crescente automação, principalmente em seus setores industriais. Os sistemas operacionais monitorados, controlados e executados por meio de máquinas e ou dispositivos mecânicos, eletrônicos ou computacionais já vêm otimizando o uso do tempo, dos insumos, do capital e melhorando a qualidade dos produtos. Essa automação está baseada no fato de que não há mais abundância de mão de obra farta e barata. Agora, uma nova fase começa a entrar na vida cotidiana, com as operações autônomas e que exigem uma conjugação de tecnologias, como conectividade, internet da coisas, entre outras. Nas próximas décadas é essa a realidade com a qual os vários segmentos do agronegócio vão tratar, determinando a intensidade e o ritmo que essa automação pode ganhar, em um setor ainda fortemente apoiado na mão de obra.

Edição genética

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Desde que a técnica foi aprimorada para uso prático, em 2012, as revistas científicas e os órgãos internacionais de pesquisas buscam caminhos para responder até onde o Crispr pode ir. No caso, Crispr é a sigla para edição gênica, que pode ser humana, animal e vegetal. Na agropecuária, a técnica pode imprimir melhorias em uma espécie, sem que haja a inclusão de DNA de uma espécie diferente. Por exemplo, editar um gene resistente às pragas e doenças em uma planta que necessite de menos insumos, como água e fertilizantes. No ano passado, o Brasil deu o primeiro passo nesse sentido, ao normatizar o uso de técnicas de edição de genomas em plantas, animais e micro-organismos. A resolução normativa que estabeleceu os requisitos, e que abre caminho para a prática científica, está sob a guarda da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.

Alimentos funcionais e nutracêuticos

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Alimentos funcionais e nutracêuticos não são novidades. Os funcionais fazem parte de uma concepção nascida no Japão ainda na década de 1980, através de um programa de governo. Os nutracêuticos compõem uma ampla variedade de alimentos e componentes alimentícios com apelos médico ou de saúde, uma tendência que começou a ganhar corpo a partir dos anos 2000. Compostos bioativos, normalmente presentes nos alimentos, serão cada vez mais estudados visando a sua contribuição aos processos metabólicos, ou simplesmente como um complemento alimentar. Bioterapêuticos, bioprotetores e bioprofiláticos já são objetos de estudo no desenvolvimento de alimentos saudáveis para uma população que envelhece e apresenta uma grande expectativa de vida. Estudos da Organização Mundial da Saúde mostram que ela será a maior da história da humanidade em 2030. Até lá, a expectativa de vida será de 90 anos de idade em 35 países emergentes e desenvolvidos.

Gestão de paisagem

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Historicamente, a paisagem tem sido modificada pela ação do homem. Na ocupação de territórios em áreas urbanas e rurais, elementos de ecossistemas passam a ser cada vez mais raros. Daí a gestão da paisagem como conceito e metodologia para intervir na gestão estratégica do ambiente passa a ser uma necessidade no agronegócio. Essa é uma tendência de futuro, no qual é preciso ter a paisagem harmônica do ponto de vista físico e biológico. Isso porque os campos produtivos e os preservados são uma construção social e cultural com identidade determinada. Cada vez mais, o bom uso da terra se baseará em justos padrões de consumo, de regularização fundiária, de diálogos intersetoriais e em práticas agrícolas e florestais estratégicas. A qualidade visual é parte de um movimento em ebulição no conceito de sustentabilidade.

Bem-estar animal

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A produtividade da cadeira de proteína animal está ligada essencialmente ao manejo de boas práticas e de bem-estar, da fazenda ao abate. Esse conceito cresce entre uma parcela de consumidores que preferem alimentos de propriedades que garantam o melhor tratamento aos seus rebanhos. Não é por menos que os produtores rurais estão estruturando manejos de pasto, confinamentos e granjas, visando atender a esse movimento. Na produção de bovinos, os animais devem receber um tratamento mais tranquilo, sem gritos e cutucões de vara. Nos confinamentos, o conforto térmico com barreiras de luz, aspersores de água e sombreamento precisa ser a regra. Nas granjas de aves e suínos, a meta é dar mais espaço e conforto aos animais. A tendência a um sistema de criação livre de gaiolas na produção, incluindo o acesso dos animais à uma área comum, já é uma demanda do consumidor.

Inteligência artificial

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A inteligência artificial, anunciada como salvação econômica, é mais do que ligar máquinas, equipamentos e pessoas. Os impactos das tecnologias colocam como necessário o justo entendimento dessas mudanças para que a sociedade desfrute de soluções sustentáveis. O agro faz parte de processo, de forma intensa. A automação inteligente, pessoas mais produtivas apoiadas por máquinas e a capacidade de impulsionar inovações à medida que a inteligência artificial avança sobre os setores da economia já é fato. Agora, os desafios têm outra ordem. Eles passam pela harmonização de ferramentas visando o futuro. Para isso, é tarefa fortalecer os ecossistemas formados por startups, empresas, academia e governo. Também é necessário preparar as próximas gerações para essa transformação e, principalmente, idealizar uma regulamentação inteligente que elimine travas ao seu desenvolvimento.

Gestão da água

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Segundo a Agência Nacional de Águas, a cada segundo são utilizados, em média, 2 milhões e 83 mil litros de água no Brasil. Desse total, 58,2% vão para a produção agropecuária. A tendência é que esse consumo cresça até 2030. Até lá, o órgão prevê que a agropecuária utilize 59,6% dos 81,1 trilhões de litros rateados com o abastecimento de casas urbanas e rurais, a indústria e a atividade de mineração. Mas o futuro é de uma agropecuária que consuma cada vez menos água. Como isso será possível? Reduzindo o desperdício, aumentando a eficiência de sistemas de gotejamento. Um bom exemplo é o Agro Katu, desenvolvido pela Universidade Federal do Pará. O sistema reaproveita água da chuva armazenada em cisternas e, aliado à automação de sistemas de cultivo hidropônico (foto abaixo) pode reduzir o consumo de água em até 95%. Além disso, o melhoramento genético trará variedades de plantas que necessitam de menos água para produzir.

Insumos biológicos

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Fertilizantes e defensivos agrícolas biológicos estão na moda e vão dominar o mercado no Brasil e no mundo. No País, as tecnologias de controle de pragas, por exemplo, usando espécies de bactérias, fungos, vírus, abelhas e pequenas moscas já tomam conta de 10 milhões de hectares, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico. O número representa 13,1% da área efetivamente ocupada por lavouras e florestas plantadas no País. Mundialmente, a conta até o próximo ano é de um mercado estimado em US$ 5,1 bilhões. Esse movimento tem como pano de fundo uma crescente onda de consumidores que estão avessos a alimentos cultivados apenas com fontes químicas sintéticas. Nesse ramo, a pesquisa não para e tem apresentado soluções para a nutrição de plantas com novas espécies de bactérias. A aposta é alta nesse setor.

Rastreabilidade

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A tecnologia de blockchain apenas começou há cerca de 2 anos no País e já rendeu um caso de sucesso inédito no rastreamento de um lote de carne suína, desde sua origem, na fazenda, até a gôndola do supermercado. O projeto envolveu as empresas BRF, Carrefour e IBM. No caso da IBM, ela está investindo US$ 5,5 bilhões em um centro de pesquisas de blockchain no País, o primeiro da América Latina, prometido para 2020. O avanço da ferramenta digital no agronegócio será crescente nos próximos anos. Hoje, as informações coletadas pelas máquinas e implementos agrícolas estão alimentando um banco de dados que poderá ser acessado por consumidores. A tecnologia permitirá que uma pessoa saiba não somente a origem do alimento, mas também conheça por quais processos ele passou na fazenda. Mas não é só. O futuro será de mais transparência a em todos os elos da cadeia de produção do agronegócio. Nesse sentido, além da tecnologia do blockchain, estão em estudos chips, sensores e monitoramento digital de cargas.

Fazendas verticais

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A ideia das fazendas verticais não é nova. Ela vem do final dos anos 1970, patrocinada por pesquisadores norte-americanos. A primeira comercialmente viável surgiu em 2012, em Cingapura, com 120 torres de alumínio. O elemento novo nesse ambiente de transformação é a velocidade que a construção de estruturas de produção vem ganhando nos últimos anos e o emprego da alta tecnologia para garantir a sustentabilidade dos sistemas. Nesse sentido, a produção de alimentos nas alturas é revolucionária, visando atender ao aumento da demanda por comida e à segurança sustentável. No Brasil, a primeira experiência nasceu nesse ano, na cidade de São Paulo, sendo a primeira na América Latina. A Pink Farms, com uma estrutura de 200 metros quadrados de área produtiva, está produzindo hortaliças em sistema hidropônico. No futuro, esse tipo de empreendimento, fará parte de um conjunto de soluções viáveis também do ponto de vista econômico, com preços competitivos nas gôndolas dos mercados.

Redução de desperdício

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A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que o desperdício global de alimentos seja da ordem de 1,3 bilhão de toneladas, por ano, o equivalente a US$ 750 bilhões. No caso do Brasil são 26,3 milhões de toneladas de alimentos descartados. Com esse volume seria possível doar 131,5 quilos para cada habitante. Mas o desperdício não é somente de alimentos prontos para consumo. Há perdas evitáveis em toda a cadeia produtiva, do plantio ao consumo. Por isso, determinar a “pegada do desperdício alimentar”, referindo-se à pegada ecológica, cada vez mais fará parte de uma conta matemática para medir a quantidade de terra e de água necessárias para sustentar o consumo de uma população. E isso ganhará importância econômica para os países produtores de alimentos.