Estilo no Campo

Variedade a cada gole

Com mais de 1,3 mil cervejarias registradas, o Brasil está desenvolvendo um mercado diversificado onde há espaço para a criação de receitas ousadas: vale envelhecimento em barril, adição de frutas, leveduras da fazenda – ou tudo junto

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FUGINDO DO CLÁSSICO A Trilha, de São Paulo, já lançou mais de 250 rótulos diferentes desde 2016 (Crédito: Divulgação)

Mesmo para quem já mergulhou no universo das cervejas artesanais, a variedade de estilos pode surpreender. O Beer Judge Certification Program (BJCP), principal programa de qualificação para quem quer julgar uma cerveja, lista 34 famílias de estilos, cada uma com diversas subdivisões. Para ter uma ideia, só entre IPAs são oito variedades. A organização americana Brewers Association define até estilos regionais em uma lista que inclui literalmente centenas de opções. Com essa diversidade é possível criar desde alternativas baratas, para o consumo diário, até rótulos exclusivos, com receitas autorais e processos de elaboração mais complexos. Nesse cenário, o Brasil vem construindo um ecossistema cervejeiro com muito espaço para a inovação.

Programa bjcp lista dezenas de estilos, divididos em 34 famílias

Neste ano, o País chegou à marca de 1.383 cervejarias registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Há 10 anos eram apenas 129. Esse crescimento vem acompanhado da necessidade de atender às demandas de um consumidor exigente e ávido por novidades. É o caso da Trilha, de São Paulo. Conhecida pelos lançamentos semanais, ela tem sete rótulos de linha, mas já produziu mais de 250 receitas desde sua fundação, em 2016. “Nunca quisemos nos ater aos estilos clássicos”, afirmou Daniel Bekeierman, um dos fundadores.

O carro-chefe é a Melonrise, uma juicy IPA, variante turva, menos amarga e mais fresca, saborosa do estilo clássico. Hoje, essa variedade, também chamada de Hazy ou New England IPA, se tornou a queridinha do mercado. Mas a Trilha também oferece uma linha de cervejas envelhecidas em barris. “Temos as super frescas, saturadas de sabor, e as Barrel Aged, que são mais complexas. São complementares. Existe um momento para cada uma”, disse Bekeierman. Segundo ele, o interesse pelas cervejas envelhecidas é um caminho sem volta. O dilema é equilibrar os custos. Uma lata da Melonrise custa R$ 25. Uma garrafa de um rótulo barrel aged custa R$ 65.

Também em São Paulo, a Dogma começou as atividades um pouco antes, no final de 2013, e pegou o início da febre pelas IPAs. “Quando dissemos que só faríamos IPAs, acharam que éramos loucos. Agora é o principal produto das cervejarias artesanais”, afirmou Bruno Moreno, um dos sócios fundadores da cervejaria. O estilo ainda representa de 80% a 90% do faturamento da Dogma. Mas nos últimos anos ela construiu uma identidade forte que atrai o aficionado, disposto a experimentar. Assim, consegue apostar em rótulos envelhecidos em barris com tiragens limitadas, de 270 garrafas. É o caso da Oud Brunim (R$ 99).

Para renato bazzo, da dama, lançar novos rótulos leva anos, mas todo o mercado ganha

Cerveja é agro Em busca de receitas autorais, algumas cervejarias olham para a riqueza da nossa agricultura. E a mineira Zalaz é um dos bons exemplos dessa sinergia com o campo. Projeto de Fabrício Almeida e sua mulher, Junia Falcão, a cervejaria está instalada na Fazenda Santa Terezinha, em Paraisópolis (MG), propriedade da família de Almeida que fornece insumos para a fabricação das cervejas. O portfólio é composto principalmente por rótulos sazonais, que oferecem uma releitura de estilos belgas com insumos brasileiros.“Em nossa linha Ybirá usamos uma levedura nativa da região e acrescentamos adjuntos nas receitas”, disse o fundador. Elas passam por barricas e levam, em média, dois anos para chegar à prateleira.

Traduzir a brasilidade em cervejas também é a proposta da Oca. Mais recente, a cervejaria começou as atividades no final de 2019 e desde então vem conquistando espaço por conta de suas latas de design colorido com nomes indígenas nos rótulos e por abusar do uso de frutas nas receitas de IPAs e cervejas ácidas. Um dos lançamentos, a Urucum leva maracujá, morango, hibisco e urucum. As receitas têm atraído a atenção até de quem não é muito chegado. “Levo latas para quem é do mundo do vinho e a reação é sempre surpreendente. Ajuda a abrir os horizontes”, afirmou André Nóbrega, fundador da Oca.

PORTA DE ENTRADA E há espaço inclusive para as cervejarias mais tradicionais. É o caso da Dama Bier, de Piracicaba (SP), que completou 11 anos. A empresa oferece uma linha variada para quem está se familiarizando com as opções. “A partir da evolução do mercado, desenvolvemos dois projetos de longo prazo que misturam conhecimento cervejeiro, tecnologia e ingredientes diferenciados”, afirmou o CEO, Renato Bazzo. Um deles, Wood Selection, é a linha de cervejas envelhecidas. Já o foco do Dama Lab é fazer experiências em pequenos lotes. A mais recente é uma Brown Ale feita com a fabricante de cookies Dona Maricota, de Piracicaba. “Os consumidores devem estar dispostos a experimentar. É um processo, e as cervejarias têm feito um bom trabalho. Todos ganham”, disse Bazzo.